O empresário mais ousado do mundo parece à beira de um ataque de nervos. Quem segue os tuítes de Elon Musk sabe do que se trata.

Sua Tesla Motors anda com dificuldade de entregar milhares de Modelos 3 no prazo. Centrais sindicais e autoridades de segurança do trabalho na Califórnia investigam más condições de trabalho e acidentes na fábrica de Fremont.

Multiplicam-se reportagens sobre desastres, alguns fatais, com seus Modelos S. Os bólidos elétricos equipados com piloto automático permitem que motoristas trafeguem sem as mãos nos volantes. O sistema de câmeras e sensores falhou em algumas situações.

As ações da empresa, após várias más notícias, dúvidas sobre sua solvência e uma desastrada conferência de Musk com investidores, caíram nos últimos meses. Chegaram a valer US$ 385 em setembro de 2017; hoje são negociadas na casa de US$ 290.

O sul-africano que fez fortuna nos Estados Unidos parece pronto a brigar com todo mundo. Agora deu de atacar a imprensa numa saraivada de mensagens raivosas. 

Acusa jornalistas de incompetência ou de má fé e promete expô-los numa página de internet com o endereço pravduh.com, referência ao jornal russo Pravda (verdade) e a popular exclamação americana (duh) para indicar que alguém se comporta como idiota.

Seria arriscado subestimar Musk, porém, e sua aposta visionária na eletrificação do mundo. O homem já provou estar certo quando quase todo mundo achou que estava errado.

Ele fabrica telhas com coletores fotovoltaicos para transformar energia solar em eletricidade e acumulá-la em baterias PowerWall que podem ser instaladas na garagem de casa, tornando-a independente da rede pública.

Prometeu revolucionar a indústria automobilística e vem tendo sucesso, como se verá mais abaixo. Sua SpaceX fez o que parecia impossível: recuperar estágios de lançadores de satélites, pousando-os em plataformas até no meio do mar.

Houve, é verdade, vários fracassos antes que seus foguetes conseguissem aterrissar controladamente na vertical. Musk insistiu, convicto de que a engenharia pode superar percalços. Como tem só 46 anos, não será surpresa se de fato conseguir levar seres humanos até Marte, como tenciona.

Seus luxuosos carros elétricos eram vistos como brinquedos caros de milionários e bilionários do Vale do Silício. Aí o empresário disse que iria massificá-los com seu Modelo 3, ao preço de US$ 35 mil (cerca de R$ 130 mil) e com a promessa de aposentar motores a explosão e combustíveis fósseis que agravam o efeito estufa.

O cronograma de entrega tem atrasos, mas a reação dos compradores que já puseram a mão num Modelo 3 vem sendo entusiástica.

Nem mesmo uma resenha negativa da revista “Consumer Reports” conseguiu abalar a reputação do carro. Ao contrário, acabou por melhorá-la, após o que se poderia chamar de primeiro tele-recall da história.

O teste indicou grandes falhas nos veículos da Tesla, de excesso de ruído de vento a bancos traseiros desconfortáveis e controles complicados. O pior defeito apontado foi a distância de frenagem a 96 km/h, de 46 m, muito pior que qualquer outro modelo na categoria.

Musk reagiu rápido. Entrou em contato com editores da “CR”, informou que os testes da própria Tesla indicavam uma distância de 40 m, mas disse que iria resolver o problema.

E resolveu: promoveu uma atualização remota do software do sistema de frenagem dos carros —pela internet, por assim dizer. A própria revista disse que nunca antes algo assim acontecera e reverteu sua avaliação desfavorável, passando a recomendar a compra do Modelo 3.

Outro atestado de competência para a Tesla veio de quatro concorrentes alemães cujos nomes não foram divulgados pela revista empresarial “Wirtschaftswoche”, mas há indícios que se trata de Daimler, BMW, Audi e VW.

Cada uma das vacas sagradas da indústria automobilística teria comprado em segredo um Modelo 3 e o desmontou. Chegaram à conclusão de que o custo das peças monta a US$ 18 mil e o de produção, a US$ 10 mil, portanto US$ 7 mil abaixo do preço de venda direta pela Tesla.

Mais ainda: teriam reconhecido que não conseguiriam fabricar um carro com a mesma tecnologia por esse valor.

Pode até ser que Musk tropece feio e não consiga efetivar todas as suas visões. Mas alguém com tantas realizações para sua idade (e 22 milhões de seguidores para seus tuites) merece atenção, ou mesmo respeito.

E não custa nada dar algum crédito também para a suspeita levantada por seus admiradores de que por trás de alguns dos ataques estão interesses poderosos de conservadores ligados à indústria decadente dos combustíveis fósseis, como os famigerados irmãos Koch.





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