Damon Centola, da Universidade de Pensilvânia, é autor de uma proeza: produzir boa notícia a respeito da polarização política. Sobre mudança climática, é verdade, valendo só para os EUA, porém capaz de dar algum alento aos que acreditam no esclarecimento por meio do debate público.

O experimento de seu grupo está na edição desta semana da revista PNAS, da academia de ciências americana. Puseram sob exame o comportamento de conservadores e progressistas diante de dados da extensão do gelo marinho no Ártico, que se reduz ano a ano com o aquecimento da temperatura média da atmosfera da Terra.

Participantes recrutados pela internet tinham a tarefa de predizer o futuro da calota de gelo depois de examinar um gráfico (veja quadro). No grupo de controle, deu-se o esperado: conservadores previram (erroneamente) que ela iria aumentar, e progressistas, que iria diminuir.

Não há –não deveria haver– discussão sobre os dados. A tendência de queda na curva é evidente.

Quando a Nasa (agência espacial americana) divulgou a figura em 2013, contudo, surpreendeu-se ao vê-la interpretada por comentarista e grupos de direita como indicação de que o gelo se expandiria. Quanto mais interação havia entre republicanos e democratas, mais polarizadas e incorretas as opiniões sobre mudança climática pareciam se tornar.

Conservadores duvidam da transformação do clima porque repelem a noção de que a atividade econômica necessite de freios para diminuir a emissão de gases do efeito estufa. Com esse viés, se fixam no último ponto do gráfico para concluir que a cobertura do Ártico vai aumentar, ou seja, que o aquecimento não ameaça nem preocupa.

“Antes de nosso estudo, a maioria das pessoas atribuía a crescente polarização às discussões entre as duas alas partidárias. O que descobrimos foi que é na verdade o oposto”, diz Centola.

Na realidade, depende. Quando os participantes eram expostos às previsões dos outros sem saber de sua orientação ideológica, todos corrigiam suas estimativas e se aproximavam do que a tendência do gráfico indicava.

As redes sociais bipartidárias usadas na pesquisa de Centola aumentaram de modo significativo o consenso sobre mudança climática, levando mais de 85% de republicanos e democratas a concordar que o gelo marinho do Ártico está de fato decaindo.

Tudo mudava quando, junto das projeções de outros participantes, aparecia na tela também sua preferência política ou, pior, logotipos de partidos. Nestes casos, o consenso tende a se desencaminhar.

“Nossos achados mostram que a causa da polarização não é a comunicação entre as alas partidárias, mas sim a comunicação num contexto social politizado”, diz Centola, autor do livro “How Behavior Spreads: The Science of Complex Contagions” (como o comportamento se espalha: a ciência de contágios complexos).

A recomendação prática do autor é remover de redes sociais e programas de TV os distintivos indicando a filiação de quem apresenta uma interpretação dos fatos. Isso aumentaria a chance de que ela seja ponderada por seu valor objetivo, não pela posição política de quem fala.

Isso, claro, supondo que alguém queira de fato esclarecer alguma coisa. Basta assistir ao programa eleitoral brasileiro, ou ler seções de comentários e posts em redes sociais, para constatar que as coisas não se dão bem assim.

De todo modo, o debate sobre a mudança climática tem origem na ciência, antes de ser capturado pela política. Em princípio, não é impossível que as pessoas tirem as conclusões corretas se expostas aos dados.

“Dar informação às pessoas não é o bastante para que mudem de opinião. O viés partidário ainda pode fazer com que se apeguem a suas crenças”, ressalva Centola.

“A boa notícia é que as redes de comunicação desenhadas sem influências partidárias podem mobilizar o aprendizado social para incrementar significativamente a troca de informação entre as alas. Com isso feito, quando novas informações alcançam as pessoas, elas podem efetivamente mudar suas opiniões.”

“Lição aprendida: sempre que possível, cientistas, fiquem longe de afiliação partidária para dar mais credibilidade à comunicação”, disse em entrevista por correio eletrônico o climatologista Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências que atuou por décadas no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“Isso é mais difícil nos EUA, onde a maioria da comunidade científica e a quase totalidade dos cientistas climáticos se identificam mais com o Partido Democrata. No Brasil, a comunidade científica em sua maioria (exceto alguns das ciências sociais) tem menor ligação com partidos, você não acha?”

A afiliação partidária, na opinião de Nobre, tem algo de religioso e pouco de pensamento reflexivo e independente: “Acho que é global, e não particular da sociedade americana”.


Como foi o estudo

2.400 participantes recrutados pelo site Amazon Mechanical Turk, metade com perfil conservador, metade progressista

Distribuição aleatória em quatro situações

1. Controle – grupo de pessoas com a mesma ideologia

2. Rede social estruturada com igual número de conservadores e progressistas expostos a opiniões dos outros sem informação sobre orientação ideológica

3. Rede social estruturada com igual número de conservadores e progressistas expostos a opiniões dos outros com informação sobre orientação ideológica

4. Rede social estruturada com igual número de conservadores e progressistas expostos a opiniões dos outros e a logotipos dos partidos Republicano e Democrata

Em cada situação, grupo de pessoas estimam a cobertura de gelo no Ártico no ano 2025 com base na tendência de um gráfico da Nasa de 1980 a 2012

Situação 1

Trabalhando sozinhos, participantes dão respostas enviesadas pela ideologia –conservadores menosprezam a clara tendência de diminuição e apontam aumento, ancorando-se no último ponto da curva

Situação 2

Expostos à média de estimativas dos outros participantes e convidados a rever a projeção, tanto conservadores quanto progressistas dão respostas mais corretas

Situação 3

Mesmo recebendo informação sobre a ideologia de outros participantes, os dois grupos ainda reveem as projeções na direção acertada

Situação 4

O pior desempenho nas revisões acontece quando os participantes recebem estímulos políticos salientes, como logotipos de partidos



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