Todos sabem que o Brasil caminha para trás —inclusive no futebol. Nem todos percebem, contudo, que em algumas trilhas —como a da vacinação obrigatória— caminhar para trás leva ao despenhadeiro.

A queda abrupta nos índices de cobertura da população infantil tem sido noticiada com destaque na Folha. O retrocesso se deu em 2016 e 2017, como se escreveu aqui, sem que ninguém saiba direito por quê.

Haverá falhas nas estatísticas ou na logística do Ministério da Saúde e das prefeituras? Na atual carência aguda de recursos públicos, talvez falte pessoal para identificar, visitar e vacinar famílias refratárias, ou mesmo para enviar dados em formato correto a Brasília.

Talvez faltem também computadores, treinamento ou conexão de internet para transmitir as informações. O país tem uma caderneta de vacinação obrigatória por lei, mas não um sistema nominal de controle das imunizações.

Fala-se que os pais têm dificuldade de fazer, no horário de trabalho, até 15 incursões por criança aos postos de saúde. A explicação não convence, porque nada aí mudou tanto a partir de 2015.

Algum outro fator parece levar as pessoas a negligenciar esse dever básico. Ninguém mais vê essas doenças, racionaliza um. Meus meninos estão bem alimentados, não vão morrer disso, engana-se outro. Vacinas têm efeitos colaterais, apavora-se mais um.

Em lugar de seguir tateando no escuro sobre razões do recuo nas taxas, o Estado precisa reagir. Sem noção correta sobre as origens do fenômeno, não terá como combatê-lo, e os gastos bilionários com compra de vacinas redundarão em mais desperdício ou, pior, retorno de doenças graves.

É preciso fazer pesquisas de opinião para tentar descobrir os motivos de mães e pais para não levar suas crianças aos postos. Aí será possível desenhar campanhas de esclarecimento dirigidas e precisas, focalizadas nos grupos e questões mais problemáticos.

Dá para inovar, também. Que tal fazer experimentos científicos para testar algum tipo de incentivo capaz de levar as famílias aos locais de vacinação? Estudos randomizados com grupos de controle, como é de praxe nas ciências naturais.

Esse tipo de teste tem ganhado destaque nas últimas décadas. Uma defensora destacada é a economista francesa Esther Duflo, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Duflo já se envolveu em estudos que multiplicaram por seis taxas de imunização em localidades da Índia com o recurso a pequenos presentes, como um quilo de lentilhas. Este artigo de 2015 de Jeff Tollefson no periódico Nature dá uma ideia do que os “randomistas” tentam alcançar com tais métodos.

Dá para imaginar que, no Brasil, um quilo de lentilhas não seja tão atraente. Já um cartão com R$ 10 ou R$ 20 de créditos para celular…

Talvez não seja difícil convencer gênios do marketing de operadoras de telefonia a doar alguns milhares de cartões para um teste, em que os moradores de apenas alguns distritos receberiam o empurrãozinho para cumprir sua obrigação.

Quem sabe assim, com pesquisas de opinião e estudos controlados, as autoridades e o público brasileiro possam ganhar alguma clareza sobre as misteriosas razões que levam o país a andar para trás —e a brincar com fogo, como fez diante dos diabos vermelhos.



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