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As principais universidades brasileiras no sabem o que se passa com a sade mental de seus estudantes de ps-graduao.

o que se depreende das respostas que 19 instituies de ensino superior deram ao questionrio enviado pela reportagem sobre o assunto. Foram procuradas as 20 primeiras colocadas do Ranking Universitrio Folha (RUF ) alm da melhor da regio Norte, a UFPA. Juntas, elas abrigam mais de 70% dos alunos de mestrado e doutorado do pas. Apenas PUC-Rio e UnB no responderam.

Na ltima segunda (18), a Folha publicou reportagem com parte dos quase 300 depoimentos enviados ao jornal por alunos de mestrado e doutorado de todo o Brasil em que eles contam suas agruras e dificuldades durante a ps.

pergunta “Qual o diagnstico da instituio sobre a sade mental de seus alunos de ps-graduao?”, sete universidades afirmaram que no possuam um; seis no responderam questo e seis manifestaram algum tipo de preocupao com o assunto, sem, porm, apresentarem qualquer resposta concreta acerca do tema.

“Ainda no h a percepo, dentro da universidade, de que essas questes so ligadas ao ensino e vida acadmica. Em geral, considera-se que um problema do aluno”, diz Tnia de Mello, coordenadora do Servio de Assistncia Psicolgica e Psiquitrica ao Estudante da Unicamp.

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“Como a universidade poder ter um diagnstico de algo que ela nem considera um problema?”, questiona.

Para o psiclogo Robson Cruz, professor da PUC-MG e pesquisador da sade mental de estudantes de ps, outra razo para a falta de ateno das universidades a essa questo a dificuldade de lidar com ela, j que os problemas variam de acordo com a rea.

Nas humanas, por exemplo, a relao com a escrita –como elaborao da tese e artigos– pode ser a parte mais penosa. J nas reas experimentais, a maior questo a carga excessiva de trabalho dentro de um laboratrio, explica Cruz.

ATENDIMENTO

Todas as instituies procuradas possuem algum tipo de assistncia psicolgica e psiquitrica, seja em servios voltados ao corpo discente ou a toda a comunidade universitria. Nenhuma, porm, possui uma assistncia especfica para a ps-graduao.

“Existe um certo entendimento de que o ps-graduando, por j ter passado pela graduao e em geral ter bolsa, algum que possui autonomia e independncia, quase um pesquisador, e que, portanto, no precisaria receber muito apoio. um engano”, diz Eduardo Benedicto, coordenador do Centro de Orientao Psicolgica da USP de Ribeiro Preto.

Na viso de Cruz, diante das especificidades da ps, seria necessrio um treinamento especializado de profissionais para lidar com esses estudantes.

J Tnia de Mello acredita no ser necessria tal especializao. “Claro que ajuda quando voc entende esse universo, mas uma boa rede de acolhimento deve conseguir dar conta dessas questes.”

O mais importante, diz, haver uma boa estrutura de acolhimento no momento de crise. “Teria de ser algo acessvel. A continuidade do tratamento pode at ser feita em outro lugar. como funciona a maior parte dos servios nos EUA e no Reino Unido”, diz Mello.

Ressaltando que se trata de uma realidade diversa da brasileira, Mello cita como exemplo a Universidade de Berkeley, nos EUA, que disponibiliza uma linha direta para que os estudantes em crise possam ligar, com diviso por lngua, origem tnica e orientao sexual. “No h nada similar por aqui.”

PREVENO

No campo da preveno e da educao, o quadro parece ainda pior. Nove das 19 universidades ou no possuem ou no informaram a existncia de aes nesse sentido. As dez restantes ou promovem iniciativas espordicas (no vinculados a programas especficos), reduzidas, ou ainda esto implantando aes mais robustas.

Nenhuma, no entanto, implementou medidas que visem preparar o docente para para lidar com seus alunos, sobretudo orientandos, algo considerado fundamental pelos especialistas ouvidos.

“Temos de preparar os orientadores para ter uma viso mais humana da orientao”, afirma Eduardo Benedicto.

Mello lembra que “em geral, o docente no tem subsdios para lidar com a questo, pois no recebe qualquer treinamento das universidades para identificar e ajudar o aluno que enfrenta um transtorno mental.”
Cruz, por sua vez, aponta que o problema mais embaixo e deveria ser objeto da prpria formao dos docentes. “Eles simplesmente no so preparados para serem orientadores. No h nenhuma nfase, durante o mestrado e o doutorado, em ensino, didtica, relao interpessoal, processo de orientao etc.”

Alm de aes voltadas aos docentes, os especialistas sugerem a criao de “espaos de segurana” em que os alunos possam confidenciar suas angstias e fazer denncias de assdio moral e sexual.

“Seriam espaos onde as pessoas pudessem falar com mais naturalidade sobre o tema e desmistific-lo, ou seja, deixar claro que esse sofrimento existe, que tem a ver com a ps e que se pode falar disso”, afirma Tnia de Mello.

Universidades que enviaram respostas: Ufscar, UFRJ, UFPA, Univ. Fed. de Santa Maria, UFF, UFMG, UFC, UFBA, UFPR, Univ. Fed. de Viosa, Unicamp, USP, Unesp, PUC-RS, Unifesp, Uerj, UFPE, UFSC, UFRGS



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