O jornalismo científico desta Folha perdeu no último sábado (24) um de seus mais brilhantes luminares, com a morte de Ricardo Bonalume Neto. “Monsieur Boná”, como às vezes era chamado, deixa um vazio nas páginas de Ciência que não será preenchido com facilidade.

O velho Bona já havia muito abrilhantava a cobertura de exploração espacial e astronomia, para não mencionar sua ampla experiência cobrindo guerras como o principal “milicólogo” do jornalismo brasileiro, quando cheguei à redação do jornal, em 2000. No ano seguinte, tive o privilégio de cobrir com ele uma Reunião Anual da SBPC, em Salvador — em plena greve da polícia militar.

Vagamos pela cidade com a confiança que só um repórter experiente que já cobriu conflitos como o do Zaire nos anos 1990 — atual República Democrática do Congo, ele faria questão de frisar — e um foca imprudente poderiam ter. No restaurante, ouvimos de um garçom: “É guerra!” Virou um dos muitos bordões que o inesquecível Bona adorava lançar na redação.

O melhor deles, talvez, fosse a resposta padrão a um editor oprimido pelo fechamento: “O atraso é o preço da qualidade!” Fato real e ainda mais pertinente na época atual, em que o noticiário se tornou uma demanda instantânea. Bona era um mestre na arte de transformar ciência em notícia, com um texto saboroso e uma técnica de quem se preocupava mais com a excelência do que com a sobrevivência. E ai de quem reclamasse para ele das agruras do jornalismo. “Ganha bem para isso!” Fina ironia, sempre capaz de despertar gargalhadas em meio a momentos de tensão.

Bona foi cedo demais, aos 57 anos, após uma cirurgia a que não resistiu. Deixará saudade entre os que frequentaram a redação desta Folha nas últimas décadas e entre os incontáveis milhares que apreciavam seu trabalho nestas páginas. Do meu amigo, carrego a lembrança e o exemplo de um jornalista que praticava seu ofício com a alegria e o bom humor de quem está numa grande festa. E a festa tem que continuar. Um brinde a você, Monsieur Boná!

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