Como os leitores do blog talvez se lembrem, na semana passada tivemos na Folha um debate sobre a nova e belíssima edição de “A Origem das Espécies”, clássico de Darwin, lançada pela editora Ubu. Gravei o áudio do papo, o qual teve moderação minha e participação do filósofo Pedro Paulo Pimenta (tradutor do livro) e da bióloga Maria Isabel Landim (do Museu de Zoologia da USP). E transformei o áudio num “vídeo podcast” pro nosso canal do YouTube. Confira abaixo.

E não é só isso! Tem também, no formato de texto, a íntegra da entrevista que fiz com Pimenta sobre a obra darwiniana. Está abaixo.

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1) Em primeiro lugar, qual é a atração da “Origem” para alguém que estuda os filósofos do Iluminismo, como o senhor? É possível ver o “longo argumento” de Darwin como uma espécie de ápice do projeto iluminista ou o senhor não iria tão longe?
Eu não diria que o Darwin representa o apogeu dessa tradição, mesmo porque a ideia da ilustração é de um processo constante, que tem de se renovar sempre. Mas não há dúvida de que a teoria da seleção natural é herdeira de duas linhagens preponderantes no Iluminismo: a economia política escocesa, com a ideia de equilíbrio espontâneo por contraposição à noção de uma ordem teleológica, e a história natural francesa, às voltas com a questão da unidade dos seres vivos em meio à sua variedade.

2) É a primeira vez que se traduzem na íntegra para o português os artigos “conjuntos” de Darwin e Wallace para a Linnean Society? Como a comparação entre eles ilumina o que seria publicado mais tarde na “Origem”?
Não sei ao certo se esta é a primeira tradução desses artigos para o português, mas publicá-los junto com a Origem pareceu muito importante, porque eles esclarecem a gênese da ideia central do livro, de que os seres vivos têm uma unidade originária, da qual os indivíduos são variações, que resultam de um fator de pressão sobre a sua forma: a competição com os outros seres vivos pelos recursos naturais de subsistência.

3) Foi muito interessante a escolha das resenhas pra complementar o livro. Qual o critério pra selecionar os autores? (Estamos falando do buldogue de Darwin, de seu principal aliado teísta e de um de seus grandes críticos. Foi simples assim montar a lista?)
O critério foi esse mesmo, escolher os naturalistas que na época estavam mais atentos ao desenvolvimento da teoria de Darwin. Essas resenhas mostram que as controvérsias em torno da Origem das espécies se deram principalmente no meio científico, em torno de problemas teóricos (incluindo a ordenação da Natureza por uma sabedoria divina). A questão religiosa, esse embate entre “evolucionismo” e “criacionismo”, é mais recente, é uma marca da nossa época, eu diria.

4) Existe algo de único no pensamento darwiniano, na sua capacidade de encadear observações empíricas e lógica indutiva, que o diferencia de outros grandes nomes da ciência do século 19, na sua opinião? Confesso que sempre senti que algo assim havia, mas pode ser apenas “hindsight”, o fato de sabermos que, em larga medida, ele estava correto.
O Darwin é único por diversas razões, e essa é certamente uma das principais. Ele não apenas teve uma ideia luminosa e original, corroborada empiricamente e desenvolvida com todo rigor, como soube exprimi-la em um livro perturbador, que continua a ser desconcertante e não perdeu sua força até hoje. É um clássico da ciência, mas também das letras do século dezenove.

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