Um objeto gerado em outro sistema planetário veio morar nos arredores de Júpiter há 4,5 bilhões de anos e desde então é um residente permanente do Sistema Solar. Quem conta essa fascinante história de imigração interestelar é Helena Morais, astrônoma portuguesa que trabalha na Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Rio Claro, no interior de São Paulo. E a descoberta tem implicações importantes para estudos que vão desde formação planetária até origem da vida.

O trabalho, feito em parceria com Fathi Namouni, do
Observatoire de la Côte d’Azur, na França, foi aceito para publicação nos Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e diz respeito ao misterioso asteroide 2015 BZ509.

Trata-se de um objeto que já chamou atenção no ano passado, quando um grupo de pesquisadores revelou que ele estava numa órbita na região de Júpiter, mas girando em sentido contrário ao do planeta. A trajetória retrógrada fazia com que ele passasse pelo gigante gasoso duas vezes a cada volta em torno do Sol, sem no entanto jamais se aproximar demais do sistema joviano para que sua órbita fosse desestabilizada.

O achado de imediato chamou a atenção de Morais e Namouni, por uma razão muito simples: eles foram os primeiros a prever que uma órbita assim seria possível. Desde então, os dois seguiram a investigação numa tentativa de descobrir como o BZ509 foi parar lá.

O primeiro passo foi determinar quão estável é a órbita dele. Para isso, a dupla lançou mão de simulações de computador com 1 milhão de “clones” do asteroide, cada um deles com parâmetros orbitais ligeiramente diferentes (para levar em conta as incertezas na determinação da situação real do BZ509, descoberto apenas há três anos). E aí deixaram a coisa rolar por 4,5 bilhões de anos — simulados, é claro.

O exercício demonstrou que o BZ509 está lá há muito, muito tempo. Provavelmente, desde que o Sistema Solar se estabilizou e seus planetas se fixaram em suas posições atuais. E aí o problema se torna outro: não teria como o processo de formação do nosso sistema planetário, então recém-terminado, produzir um objeto que essencialmente orbita na contramão dos planetas.

“Uma órbita retrógrada nos primórdios do Sistema Solar só pode ter sido capturada do exterior porque a nuvem de Oort formada devido à ejeção de pequenos corpos durante a fase de crescimento dos planetas gigantes, que depois foi tomando uma forma esférica devido ao efeito gravitacional da galáxia, não existia ainda”, explica Morais. “A própria nuvem de Oort pode ter uma componente primordial de objetos extrassolares capturados de outros sistemas quando o Sol estava ainda no seu berçário estelar.”

Com efeito, sabemos que estrelas nascem em ninhadas, e o Sol devia ter muitas vizinhas próximas, cada uma com seu kit completo de planetas e asteroides. Que alguns deles se desgarrassem de seus sistemas de origem e fossem capturados pela gravidade solar parece apenas natural. E provavelmente foi isso que aconteceu ao BZ509.

IMPLICAÇÕES VASTAS

De um ilustre desconhecido, o BZ509 passa a ser um alvo preferencial para futuras espaçonaves. Afinal, que chance melhor para estudar um objeto de outro sistema planetário do que quando ele está numa órbita estável (ainda que retrógrada, o que complica bem) ao redor do seu sol? Em tese, ele poderia ter uma composição bem diferente dos asteroides “Made in Solar System”.

Mas as consequências vão bem além disso. O fato de que o BZ509 está por aí indica que deve haver outros como ele zanzando ainda hoje pelo Sistema Solar. E, claro, nos faz pensar em todos os que passaram por aqui e não viveram para contar a história.

Decerto muitos fizeram como o célebre ‘Oumuamua, um objeto interestelar que nos visitou no ano passado e já foi catapultado pelo Sol de volta para o vazio entre as estrelas. Tantos outros foram capturados em órbitas instáveis, que os levaram a colidir com algum dos planetas ou mesmo mergulhar no Sol. Fato é que houve troca significativa de material entre o nascente Sistema Solar e seus vizinhos — talvez o suficiente para nos fazer repensar o processo de formação planetária.

E isso para não falar sobre a origem da vida. Uma das hipóteses levantadas para explicar como organismos vivos surgiram na Terra assim que as condições se mostraram favoráveis, mais de 4 bilhões de anos atrás, é a chamada panspermia — a noção de que a vida teria vindo de fora e meramente colonizado nosso planeta.

Até então, todas as tentativas de encontrar um mecanismo plausível para essa transferência por distâncias interestelares haviam fracassado. Falava-se em células propagadas em pequenos grãos de poeira, mas ali elas teriam pouquíssima proteção contra o ambiente hostil do vácuo do espaço. Uma alternativa é que elas viajassem no interior de rochas maiores, onde teriam maior sobrevida, mas a transferência por esse método parecia incrivelmente ineficaz. Ênfase em parecia. Já não parece tanto assim, ainda mais depois das descobertas do ‘Oumuamua e do BZ509. Não é mais impensável imaginar que, como gosta de dizer o astrônomo Roberto Costa, da USP, talvez a vida seja uma praga de proporções galácticas, contaminando sistema planetário após sistema planetário.

Seja como for, uma propriedade mais que evidente do Universo a essa altura é a de que, quanto mais nós o estudamos, mais interessante ele fica.

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