Ter a Abadia de Westminster como local de repouso final talvez seja a maior honraria póstuma que pode ser conferida a um britânico e, quando as cinzas de Stephen Hawking foram sepultadas lá na sexta-feira (15) , foram colocadas entre os restos mortais de Isaac Newton e Charles Darwin, dois gigantes da ciência.

Mas por mais rara que seja a ocasião, o ingresso no chamado “Valhalla” britânico não é um processo complicado, de acordo com o reverendo John Hall, o diácono de Westminster.

Na verdade, diz Hall, a decisão é só dele.

Figura envolvente, bem-humorada e influente, Hall aprecia muito os aspectos históricos de sua posição singular, e vê a cerimônia de Hawking no contexto de milhares de outras que a precederam, em um local de culto fundado mais de mil anos atrás.

“Sepultamos Isaac Newton aqui oito dias depois de sua morte”, disse Hall, falando em seu escritório, ao lado da velha abadia. “Também tomamos uma decisão imediata sobre Charles Darwin, em 1882”.

Hawking se qualifica não só por suas contribuições à ciência mas pela vida inspiradora que levou diante de obstáculos terríveis. As posições quanto à religião de um homem muitas vezes descrito como o mais famoso ateu do planeta não o desqualificam, disse Hall.

“Para mim não está claro se ele era de fato ateu ou se era agnóstico”, disse Hall. “Minha posição é simplesmente essa: quer uma pessoa acredite em Deus, quer não, se ela está realizando alguma coisa extraordinária, creio que Deus seja parte do processo”.

Há mais de 3,3 mil britânicos sepultados na abadia, ou nela comemorados, e uma caminhada em meio ao seu esplendor gótico, sob arcos ogivais, abóbadas nervuradas e arcobotantes, oferece um passeio notável, e eclético, por um milênio de história, cultura e progresso científico.

Muitas das pessoas que repousam por lá estão esquecidas há muito tempo, mas há memoriais esplêndidos, entre os quais o da rainha Elizabeth 1ª, um dos 17 monarcas sepultados na abadia, em companhia de alguns dos maiores poetas, cientistas e músicos da nação.

O rei George 2º, que morreu em 1760, foi o último monarca a ser sepultado em Westminster (a família real agora prefere Windsor). Com a falta de espaço, a abadia parou de realizar sepultamentos, no começo do século passado, ainda que o processo não tenha transcorrido com facilidade.

Em 1907, a abadia estava à espera dos restos mortais cremados de Angela Burdett-Coutts, renomada filantropa, mas recebeu seu corpo. “Eles a sepultaram de pé”, disse Hall.

O último sepultamento, em 1920, foi o do Soldado Desconhecido, em honra dos combatentes caídos na Primeira Guerra Mundial. O bloco de mármore belga negro cobre os restos mortais de um soldado e terra da França, e é a única pedra sobre a qual visitantes não estão autorizados a caminhar.

A venerável reputação da abadia como local de repouso prestigiado data do sepultamento do último rei anglo-saxão, Edward, o Confessor, em 1066 (ele foi canonizado em 1161, e seus restos transferidos a um novo templo).

Mas Westminster realmente ganhou prestígio depois da reforma protestante, quando Elizabeth 1ª a recriou, conferindo à instituição o status especial de prestar contas apenas ao soberano. Nessa época, a abadia se tornou um lugar de sepultamento muito popular entre membros da elite que se esforçavam para se manter tão perto de seus patronos na morte quanto haviam estado em vida, o que reflete o funcionamento do poder político naquela era.

A honra fúnebre que a abadia confere nem sempre se provou permanente. Oliver Cromwell foi sepultado lá em 1658, depois de ajudar a destronar e de solicitar a execução do rei Charles 1º. Mas três anos mais tarde, quando a monarquia foi restaurada, seu corpo foi escavado e pendurado em uma forca em Tyburn, o principal local de execução de criminosos em Londres.

Àquela altura, a associação entre a abadia e as figuras literárias —a origem de seu “canto dos poetas”— já estava ganhando força, mais por acaso do que propositadamente. Geoffrey Chaucer, que morreu em 1400, foi sepultado na abadia, mas apenas porque foi integrante da corte real. No século 16, quando os escritos de Chaucer começaram a ganhar popularidade, figuras literárias começaram a achar que mereciam um lugar ao lado dele. Quando Charles Dickens morreu, em 1870, o poder de atração da abadia derrotou o propósito da família dele de sepultá-lo na catedral de Rochester.

“Ele queria ser sepultado em Rochester, mas nós o queríamos aqui”, disse Hall, acrescentando, com ênfase: “Prevalecemos”.

O lugar da abadia na psique do país ficou tão estabelecido que houve discussões sobre ampliá-la e criar um Valhalla formal, um salão para celebrar os heróis mortos, mas a ideia terminou abandonada quando os problemas práticos de exumar e sepultar de novo todos os cadáveres foram considerados.

Assim, enquanto no século 19 a abadia organizava grandes funerais, e primeiros-ministros como Benjamin Disraeli e William Gladstone foram sepultados lá ou comemorados com grandes estátuas, “a tendência do século 20 foi de serviços memoriais, placas comemorativas e ocasionalmente o sepultamento de cinzas”, disse David Cannadine, professor de história na Universidade de Princeton e presidente da Academia Britânica.

“Isso acontecia em parte porque havia compreensível preocupação de que a abadia estivesse ficando superlotada; em parte porque os esquemas para a construção do Valhalla imperial adjacente não foram adiante; e em parte porque os modos de comemoração se tornaram em geral menos elaborados”, disse o professor Cannadine, que está editando uma história da abadia.

A despeito dessa tendência, houve momentos complicados para Hall, que autorizou memoriais para cerca de uma dúzia de pessoas desde que assumiu o posto – em média uma por ano -, mas também rejeitou algumas solicitações.

Por enquanto, ninguém fez lobby com ele para garantir um lugar futuro na abadia, mas houve quem pressionasse em favor de pessoas mortas recentemente.

“O complicado é quando existe alguma expectativa de que um determinado poeta tenha lugar no canto dos poetas”, ele disse, acrescentando que era preciso determinar se eles terão “importância duradoura”. Ted Hughes, por exemplo, se enquadra à descrição.

Hall autorizou que figuras modernas, como o apresentador de TV David Frost, fossem celebradas na abadia, mas parece relutar em avançar demais no território da cultura popular.

Perguntado se alguém como o músico David Bowie poderia ter lugar na abadia, ele se recusou polidamente a responder, embora sua linguagem corporal indicasse que isso era pouco provável.

Se alguém tem lugar garantido, é Hall, já que a tradição dispõe que os diáconos de Westminster sejam sepultados na abadia – ainda que mesmo essa decisão, disse ele, deva caber a um de seus sucessores.

Para esses sucessores, decidir se tornará cada vez mais difícil. Ainda que não exista estimativa formal do espaço disponível, o aperto sob a abadia fica cada vez maior, com os anos.

“A abadia só tem mil anos de idade, no momento”, disse Hall, uma vez mais contemplando a situação da perspectiva histórica. “Ela presumivelmente existirá por milhares de anos, e por isso é provável que precisemos ser mais cautelosos no futuro”.



DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here