A vida de Stephen Hawking deve ser lembrada como um marco não só na história da ciência, mas da humanidade. São muito raros os cientistas que se transformam em figuras públicas, assunto de conversa em mesa de bar ou jantares de família. Hawking é um deles. Após Einstein, talvez apenas o astrônomo Carl Sagan tenha sido tão popular.

Como cientista, Hawking influenciou toda uma geração de físicos, engajados em tentar entender como casar a teoria da relatividade geral de Einstein, que explica a gravidade como sendo resultado da curvatura do espaço em torno da matéria, com a física quântica, que descreve o comportamento de átomos e das partículas subatômicas. De cara, vemos que as duas parecem tratar de coisa bem diferentes, dado que a gravidade influencia objetos grandes, enquanto que a teoria quântica lida com objetos submicroscópicos.

No entanto, existem ao menos duas situações em que as duas teorias se encontram: nos buracos negros e na origem do Universo. Hawking trabalhou em ambas, e suas ideias moldaram o pensamento na área durante as últimas três décadas do século 20.

No caso dos buracos negros, propôs um efeito inusitado, que eles podem “evaporar”, isto é, perder sua massa ao longo dos anos. Essa evaporação é consequência direta da aplicação de efeitos quânticos na vizinhança do buraco negro. A ideia é belíssima, mesmo que ainda permaneça uma hipótese: não sabemos ou temos evidência de que buracos negros evaporem.

Segundo a teoria quântica, o espaço vazio não é vazio. Aparentemente do “nada”, pares de partículas aparecem e desaparecem continuamente, feito bolhas numa sopa. Esses pares são especiais, feitos de partículas e suas antipartículas, essencialmente idênticas às partículas, mas com carga elétrica oposta. Por exemplo, o elétron, com carga negativa, tem o pósitron, com carga positiva. As duas aparecem e desaparecem em frações de segundo.

A sacada genial de Hawking foi imaginar o que ocorre com essa criação de pares de partículas perto de um buraco negro. Ora, se a gravidade é tão forte, existe uma probabilidade de uma delas, a mais próxima, ser sugada para dentro do buraco negro. E a outra? Escapa para longe, levando consigo um pouco da energia gravitacional do buraco negro. O processo é lento, mas aos poucos o buraco negro encolhe. (Se não engolir uma estrela que passe muito perto, claro.)

Usei essa ideia em vários de meus artigos nos anos 80 e 90. Uma consequência importante é que, como o Universo tem uma idade finita de 13,8 bilhões de anos, buracos negros mais leves, com massas semelhantes à de uma montanha, estariam evaporando agora. Apesar de ser um efeito muito difícil de ser observado, se isto ocorrer seria sensacional: afinal, quando o buraco negro “evapora” por completo, o que resta no centro é o que chamamos de “singularidade nua”, o ponto em que a gravidade atinge um valor infinito. Obviamente, infinitos não são realizados na Natureza; infinito é uma ideia que, aplicada na física, demonstra que a teoria usada deixa de funcionar. O que deve ocorrer, então, é que a singularidade nua pede por uma nova teoria, que deve resultar desse casamento difícil entre a relatividade e a física quântica. A questão permanece em aberto.

A outra aplicação das ideias de Hawking vem da própria origem do Universo, o chamado Big Bang. Outra vez, se voltarmos ao ponto inicial da história cósmica, a teoria de Einstein deixa de funcionar, e temos mais um infinito, semelhante de certa forma ao coração do buraco negro, um ponto em que agora toda a matéria do universo está concentrada.

Sabemos que isso é um absurdo, e que precisamos de ideias novas para descrever o que ocorreu próximo ao Big Bang. Nos anos 80, Hawking e o físico James Hartle, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, onde fiz um pós-doutorado, fizeram uma proposta ousada: baseados em ideias anteriores, sugeriram que o estado inicial do Universo era um estado sem tempo, uma espécie de espaço que existia em si mesmo, sem qualquer transformação.

Um filósofo chamaria isso de um ser absoluto. Eventualmente, devido às instabilidades que sempre existem em sistemas quânticos, esse espaço se transformou no nosso, com um tempo que avança para frente. Espelhando noções de Santo Agostinho (Hawking não gostaria nada disso, imagino), o tempo surgiu com o próprio Cosmo.

Mas não é apenas como cientista e intelectual público que devemos ver Hawking. Ele deve ser celebrado pelo seu amor à vida, seu apego ao momento, mesmo ao confrontar uma situação médica devastadora. Hawking nunca perdeu o bom humor, o brilho que nunca deixava seus olhos, seu maior meio de expressão direto.

Por isso, Hawking tornou-se um mito; o grande cientista que lutou para desvendar alguns dos maiores mistérios da ciência, e um ser humano sem igual, que se apegou à vida com todas as suas forças.



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