Durante as décadas do reinado de terror de Joseph Stálin, quem mandava e desmandava entre os biólogos soviéticos era um agrônomo ucraniano chamado Trofim Denisovich Lysenko (1898-1976).

Lysenko dizia ter descoberto maneiras de alterar o potencial produtivo de plantas como o trigo por meio de influências ambientais que duravam apenas uma geração. 

Com isso, jurava ele de pé junto, os cereais se tornariam capazes de crescer e produzir abundantemente mesmo nas regiões mais frígidas da União Soviética, alimentando com tranquilidade as 

massas comunistas.

Pura viagem na maionese, é claro —mas tais teses malucas caíram no gosto de Stálin, que deu a Lysenko carta branca para perseguir os biólogos que ainda defendiam a ciência “capitalista” ou “burguesa” da genética. 

Quem teve coragem de se opor ao czar da agronomia foi parar na cadeia; as safras soviéticas, por sua vez, quebraram diversas vezes, levando os camponeses a passar fome, graças às ideias de jerico do ucraniano.

Enquanto cientistas da Europa e dos EUA decifravam a estrutura do DNA e sua função, seus colegas soviéticos continuaram sendo forçados a acreditar em mágica

até os anos 1960.  

Mais ou menos na mesma época em que Lysenko cativava o tirano comunista, os nazistas assumiam o poder na Alemanha (em 1933, para ser exato) e punham-se a expulsar os judeus de todas as facetas relevantes da vida pública alemã —como as universidades e os institutos de pesquisa.

O detalhe é que algumas das mentes científicas mais brilhantes do mundo na época eram judeus com cidadania alemã. Dois deles, os físicos Albert Einstein (que decerto dispensa apresentações) e Leo Szilard, resolveram abandonar o país assim que Hitler assumiu o poder e foram parar nos EUA, tal como muitos outros. 

Em 1939, Einstein e Szilard acabariam escrevendo uma carta conclamando o governo americano a desenvolver a bomba atômica antes dos nazistas —arma que forçou o Japão (aliado da Alemanha de Hitler) a se render aos EUA no fim da Segunda Guerra Mundial.

Ambas as historinhas acima deveriam ter sido suficientes para impedir que o governo Bolsonaro caísse na tentação de fazer faxina ideológica em seus quadros e no meio acadêmico brasileiro, se é que os novos senhores de Brasília de fato se importam com o desenvolvimento do Brasil. Deveriam, mas óbvia e infelizmente não estão sendo suficientes.

Quando pessoas são exoneradas em massa da Casa Civil por mera suspeita de ter simpatias mais à esquerda, ou quando o Ministério da Educação cogita usar critérios ideológicos como “eliminatórios” para concessão de bolsas de pós-graduação no exterior, segundo informou o jornal O Globo, fica difícil evitar a impressão de que Lysenko resolveu se levantar da tumba, e justo no governo mais “anticomunista” da história do Brasil.  

Não é por acaso que a biologia soviética naufragou na era Lysenko, nem foi só por sorte que os americanos venceram nazistas e japoneses na corrida atômica. Em geral, o conhecimento produzido em regimes que menosprezam a liberdade e a diversidade de pensamento é mequetrefe e pouco inovador. 

Um aluno de doutorado “socialista gayzista” (como dizem os bolsonaristas) pode muito bem ter uma ideia de pesquisa que será crucial para o desenvolvimento brasileiro. Faz algum sentido não financiá-lo só porque ele tuitou #EleNao?

Antes de me despedir, um lembrete: sim, o nazismo era de direita. Bom domingo a todos.



LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here