Não se deixe assustar pelo título acima: esta coluna não se metamorfoseou de repente num espaço de crítica musical (ainda que fosse engraçado imaginar um universo paralelo no qual eu gastaria 3.000 caracteres desancando as letras do trio formado por Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes). Tribalistas – ou seja, criaturas com uma tendência irrefreável a se dividir em tribos, em grupos de “nós” contra grupos de “eles” – somos todos os seres humanos.

Alguns dos mais importantes estudos da história da psicologia demonstraram isso de forma cabal. Meu exemplo favorito, pela mistura de cenário superficial meio cômico com camadas sombrias logo abaixo, é o chamado experimento de Robbers Cave, realizado nos anos 1950 no parque estadual com esse nome em Oklahoma (interiorzão dos EUA).

O experimento foi arquitetado pelo pesquisador americano de origem turca Muzafer Sherif e envolveu dois grupos de meninos, com idades em torno dos 12 anos, que foram levados para acampar em Robbers Cave. Nenhum dos moleques se conhecia antes do acampamento, embora eles viessem de famílias com características econômicas, sociais e culturais mais ou menos parecidas entre si.

Primeiro passo da “brincadeira”: fazer com que cada grupo acampasse em lugares diferentes do parque, sem saber da existência do outro durante alguns dias. Só isso já foi suficiente para que os aglomerados de moleques adquirissem uma identidade mínima própria: eles passaram a chamar a si mesmos de “Eagles” e “Rattlers” (os Águias e os Cascavéis, respectivamente).

Os pesquisadores, depois disso, permitiram que os meninos de cada acampamento “descobrissem” que havia outro grupo em Robbers Cave. O mero contato estimulou ainda mais a evolução de identidades distintas entre a molecada: os “Rattlers” passaram a se considerar o grupo dos durões e dos relaxados, ridicularizando os “Eagles” por serem certinhos e bonzinhos.

Se você achou que um cenário desse naipe era receita para tretas infindas, acertou em cheio. Os grupos logo começaram a bater boca e a organizar incursões destrutivas no acampamento vizinho. Competições esportivas criadas para tentar diluir a tensão só aumentaram a rivalidade. “Conversações de paz” estabelecidas por Sherif desandaram – os meninos que topavam negociar com o “inimigo” passaram a carregar o estigma de traidores. Também não adiantou líderes religiosos fazerem sermões nos acampamentos pregando o amor fraternal – os meninos entenderam que o tal amor fraternal só valia para outros garotos dentro do próprio grupo deles.

Esse efeito foi replicado em muitos outros experimentos. Se, em laboratório, você criar dois grupos diferentes de pessoas tirando cara ou coroa e, logo depois, perguntar aos membros de cada grupo “E aí, qual grupo tem pessoas mais inteligentes/bacanas/bonitas?”, a resposta vai ser, em média, “O meu grupo”, mesmo com todo mundo sabendo que aquele aglomerado de pessoas foi formado na base da mais pura sorte.

Como Sherif impediu que a molecada se matasse? Dizendo a eles que o suprimento de água de ambos os acampamentos tinha sido cortado e que eles precisavam trabalhar juntos para defender suas barracas. Isso fez a tensão diminuir quase imediatamente. Nosso tribalismo, no fundo, é ilusório diante da infinidade de problemas comuns. Falta enxergar isso.   



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