Existe um paradoxo na vida que levamos hoje. Um artigo de 2014 da ONU afirma que em torno de 54% da população mundial vive em áreas urbanas (mais em 2018), uma proporção que está projetada a ficar entre 66% e 75% em 2050. Em 2045, segundo o artigo, mais de seis bilhões de pessoas viverão em cidades.

Existem várias razões que justificam esse êxodo rural em direção às cidades. Mais oportunidades de trabalho, mais escolhas, mais cultura e diversidade cultural e comunidades maiores.

Por outro lado, e este é o paradoxo, viver numa cidade de concreto, com poucas áreas verdes, vai contra algo que carregamos na nossa essência —mesmo que muitos se esqueçam disso: nossa necessidade primal de estar perto da natureza.

Um estudo da Agência de Proteção Ambiental dos EUA concluiu que a população americana passa em torno de 90% do tempo dentro de casa ou no ambiente de trabalho, onde a concentração de poluentes chega a ser de duas a cinco vezes maior do que em áreas abertas. Essencialmente, vivemos nossas vidas enclausurados entre quatro paredes e sob um teto, respirando ar de má qualidade. Muito cinza, branco e preto, e pouco azul e verde.

Felizmente, algumas cidades levam o paisagismo a sério, adicionando parques e áreas de lazer onde as pessoas podem ao menos se aproximar da vegetação. Temos uma prerrogativa evolucionária de estar perto de plantas e florestas, de coexistir com outras formas de vida. Afinal, querendo ou não, e muitos tentam esquecer disso, somos animais, mesmo cercados de metal, vidro e telas de computador. Os que se isolam num mundo artificial podem estar comprometendo sua saúde. 

Não existe, que eu saiba, um diagnóstico oficial de desordem de déficit de natureza, mas é difícil imaginar alguém que não se sinta bem ao entrar numa floresta plena de árvores majestosas, de orquídeas, bromélias e samambaias, de borboletas e passarinhos pulando de galho em galho, respirando o ar purificado pelas plantas.

No Japão, o país com a maior densidade populacional do mundo, mas, também, com vastas florestas, existe uma tradição ancestral que tenta contrabalançar as ansiedades da vida urbana. É o shinrin-yoku, ou banho de floresta. A prática é simples, consistindo em achar tempo para caminhar em meio a florestas, buscando uma imersão com o verde e uma quebra da rotina do dia a dia. 

Um livro que sai este mês nos EUA, de autoria de Qing Li, uma autoridade mundial no impacto de florestas na saúde, combina detalhes da prática com dados situados na pesquisa científica que ele e outros vêm desenvolvendo ao longo dos anos. (Esse tipo de estudo mais científico estava ainda faltando na literatura sobre shinrin-yoku) 

O livro é um tributo a florestas e à beleza das árvores, algumas com centenas ou mesmo milhares de anos. À primeira vista, o tema pode parecer mais uma incursão na pseudociência da nova era. Mas Li vem estudando cientificamente o impacto do banho de floresta em pacientes e apresenta no livro uma lista de estudos pertinentes, muitos publicados em jornais técnicos especializados.

O especialista leciona na escola de medicina Nippon, em Tóquio, e foi professor visitante na escola de medicina da Universidade Stanford, nos EUA. Os estudos atuais podem e devem ser ampliados e replicados, claro, mas os resultados preliminares são bem promissores.

Em resumo, banhos de floresta podem reduzir o estresse, a ansiedade, e a depressão. O livro apresenta resultados de estudos que mostram uma redução nos hormônios que causam estresses variados. Óleos produzidos naturalmente por árvores, como os fitoncidos (do inglês, phytoncides), se difundem pelo ar da floresta, criando uma sensação de bem-estar quase que imediata. (Aparentemente, os pinheiros e ciprestes são as árvores mais eficientes na produção desses óleos.)

Estudos indicam uma melhora na qualidade do sono, no sistema imunológico e até no sistema cardiovascular, com queda de pressão. O livro cita resultados quantitativos, os quais ainda devem ser tidos como preliminares. Os leitores que fazem aroma terapia sabem que esses óleos têm efeitos relaxantes. A ideia é resgatar, mesmo que em ambientes urbanos, os benefícios de uma reaproximação com a natureza. Nada de errado nisso. 

Para os que não têm a oportunidade de dar esses passeios com frequência, parques e áreas verdes, mesmo que pequenas, sempre ajudam. Ou aroma terapia, usando óleos derivados de pinheiros e ciprestes e mesmo plantas em casa.

Agora entendo porque meu pai insistia em ter tantas samambaias e orquídeas na varanda do nosso apartamento em Copacabana. Basicamente, qualquer esforço para uma reaproximação com o verde proporciona benefícios. Como escreveu o filósofo inglês Alan Watts: “Você não chegou neste mundo. Você veio dele, como uma onda que vem do oceano. Você não é um estranho aqui”.

Deixando de lado os resultados científicos quantitativos, os benefícios gerais da prática de shinrin-yoku não deveriam ser muito surpreendentes. Quem nunca sentiu aquela sensação de bem-estar ao entrar em uma trilha de floresta, o sol filtrado pelas folhas criando um caleidoscópio de luz e sombras no chão?

Fazemos essas caminhadas para nos energizar, para nos reunir com nossos corpos, para limpar nossas mentes. Entrar numa floresta é puxar um botão de reset, reestabelecendo conexões que se estendem ao passado da nossa espécie. Sentimos isso visceralmente, ao nos afastarmos dos sons e cheiros artificiais da turbulência urbana.

Tendo passado as primeiras décadas da minha vida em grandes metrópoles, me sinto hoje privilegiado de viver cercado por árvores, incluindo pinheiros e carvalhos frondosos. Aliás, para celebrar a redescoberta da prática de shinrin-yoku, vou agora mesmo tomar meu banho de floresta.



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