Três anos atrás, a espaçonave New Horizons, a mais veloz já lançada pela Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa) dos Estados Unidos, passou por Plutão, revelando espetacularmente as maravilhas daquele mundo, vistas pela primeira vez.

Na véspera do próximo Ano-Novo —se tudo correr bem a bordo—, esse pequeno robô operando extremamente longe de casa nos oferecerá imagens do corpo celeste mais distante que teremos explorado —que porta o nome provisório de Ultima Thule. Sabemos pouco sobre ele, mas sabemos que não é um planeta. Já Plutão, em contraste —não importa o que você tinha ouvido— é, sim, um planeta.

Por que fazemos essa afirmação? Somos cientistas planetários, o que significa que dedicamos nossas carreiras a explorar e estudar objetos que orbitam estrelas. Usamos a palavra “planeta” para descrever mundos com determinadas qualidades.

E quando vemos um corpo celeste como Plutão, com seus muitos traços conhecidos —montanhas de gelo, geleiras de nitrogênio, um céu azul com camadas de smog—,  nós e nossos colegas nos apanhamos usando a palavra “planeta” com muita naturalidade, para descrevê-lo e compará-lo a outros planetas que conhecemos e amamos.

Em 2006, a União Astronômica Internacional (UAI) anunciou uma proposta de redefinição da palavra “planeta” que excluiria muitos corpos celestes, entre os quais Plutão. Acreditamos que a decisão tenha sido equivocada e que uma definição lógica e útil do termo “planeta” incluirá muito mais mundos.

Apanhamo-nos usando a palavra “planeta” para descrever as maiores “luas” do Sistema Solar.

O termo “lua” significa que elas orbitam em torno de outros mundos que orbitam nosso astro —mas quando discutimos um corpo celeste como Titã, lua de Saturno que é maior do que o planeta Mercúrio e tem montanhas, dunas, cânions, rios, lagos e nuvens, é bem comum que a chamemos de planeta, em nossa literatura e em nossas conferências. Essa forma de uso não representa um erro ou passadismo. Tornou-se cada vez mais comum em nossa profissão, e seu uso é correto.

Em termos essenciais, os mundos planetários (incluindo as luas planetárias) são aqueles de porte suficiente para terem adquirido formato esférico por força de sua própria gravidade. Abaixo de certo tamanho, a força do gelo e das rochas basta para resistir ao arredondamento gravitacional, e por isso os mundos menores mostram calombos. É por isso que sabemos, antes mesmo que a New Horizons chegue lá, que Ultima Thule não é um planeta.

Entre os poucos fatos que pudemos determinar sobre esse corpo celeste está o de que ele é pequeno (apenas 27 km de extensão) e distintamente não esférico. Isso nos oferece um critério natural, físico, para distinguir entre planetas e os demais pequenos objetos que orbitam no espaço —rochas, cometas gélidos ou rochosos, e asteroides metálicos, todos os quais pequenos e repletos de calombos, porque sua gravidade não é forte o bastante para que se arredondem autonomamente.

O desejo de reconsiderar o significado de “planeta” surgiu por conta de duas descobertas entusiasmantes sobre o nosso universo: existem planetas em número incrivelmente abundante, fora de nosso Sistema Solar —os chamados exoplanetas—, orbitando quase todas as estrelas que vemos no céu.

Existem muitos objetos pequenos e gelados orbitando o nosso sol, no reino de Plutão, para além da zona dos planetas internos rochosos do sistema, ou “planetas terrestres” (como a Terra), e dos “gigantes gasosos” (como Júpiter) e gigantes gelados (como Netuno).

À luz dessas descobertas, fazia sentido, pois, perguntar que objetos descobertos orbitando outras estrelas deveriam ser classificados como planetas. Alguns deles, na ponta maior do espectro, são quase como estrelas. E da mesma forma que estrelas como o nosso sol são consideradas “estrelas anãs”, fazia algum sentido considerar que pequenos mundos gelados como Plutão ocupassem outra subcategoria de planeta, a dos “planetas anões”.

Mas o processo de redefinição do termo “planeta” foi muito mal conduzido, e fortemente criticado até mesmo por aqueles que aceitaram o resultado do trabalho. Na conferência da UAI em 2006, realizada em Praga, os poucos cientistas que ainda estavam lá ao final de uma reunião de uma semana de duração (menos de 4% dos astrônomos e porcentagem ainda menor dos cientistas planetários praticantes) ratificaram uma definição redigida apressadamente, que contêm sérias falhas.

Para começar, “planeta” é definido como um objeto que orbita o nosso Sol —e assim desqualifica os planetas que orbitam outras estrelas, ignorando a revolução exoplanetária, e decreta que essencialmente todos os planetas do universo não são de fato planetas.

Mesmo no nosso Sistema Solar, os cientistas da UAI definiram “planeta” de maneira estranha, declarando que se um mundo orbital “limpou sua zona”, ou seja, se sua massa bastou para ejetar todos os demais objetos próximos, ele deve ser considerado um planeta.

Em caso contrário, não deve. Esse critério é impreciso e deixa muitos casos limítrofes, mas o pior é que eles tenham escolhido uma definição que desconsidera as propriedades físicas concretas de um potencial planeta e optado em vez disso por definir “planeta” com base em outros objetos que estejam   —ou não— orbitando nas imediações. Isso conduz a muitas conclusões bizarras e absurdas.

Por exemplo, significaria que a Terra não foi um planeta pelos primeiros 500 milhões de anos de sua história, porque orbitou em meio a uma nuvem de detritos até aquele momento, e também que se você tomasse a Terra hoje e a movesse para outro lugar, por exemplo para o cinturão de asteroides, ela deixaria de ser um planeta.

Para agravar ainda mais o problema, eles emendaram sua definição, já absurdamente complicada, por meio de uma declaração vingativa, e linguisticamente paradoxal, de que “um planeta anão não é um planeta”. Isso aparentemente não serve a qualquer outro propósito que não satisfazer as pessoas motivadas pelo desejo – por qualquer que seja o motivo – de ver Plutão “rebaixado” à nova definição.

Os astrônomos em geral ignoram a nova definição de “planeta” a cada vez que discutem todas as empolgantes descobertas de planetas que orbitam outras estrelas.

E aqueles de nós que de fato ganham a vida estudando planetas também discutem planetas anões sem acrescentar um asterisco ao termo. Mas é cansativo ter de dirimir os equívocos de percepção do público que acredita que, porque Plutão foi “rebaixado” (o que não é um termo neutro), ele deve ser mais parecido com um pequeno asteroide não esférico do que com o complexo e vibrante planeta que de fato é. Essa confusão, da parte dos estudantes e do público —fomentada por jornalistas e autores de livros didáticos que equivocadamente aceitaram a autoridade da UAI como palavra final— faz com que valha a pena encarar a questão.

Em março passado, em Houston, cientistas planetários se reuniram para compartilhar novos resultados e ideias na Conferência de Ciência Lunar e Planetária, um evento anual. Uma apresentação, intitulada, “Uma Definição Geofísica para Planeta”, tinha por objetivo regularizar a situação.

A apresentação afirmava que “em respeito tanto à classificação científica sólida quanto à intuição das pessoas, propomos uma definição de ‘planeta’ em base geofísica, que, e isso é importante, enfatiza mais as propriedades intrínsecas de um corpo celeste do que suas propriedades orbitais extrínsecas”.

Depois de oferecer uma definição precisa, em termos bem nerds, o texto da apresentação acrescentava: “Uma paráfrase simples de nossa definição para ‘planeta’ —especialmente adequada para alunos do ensino básico— é ‘objetos esféricos no espaço que são menores que as estrelas'”.

Parece muito provável que em algum momento a UAI venha a reconsiderar sua definição falha. Enquanto isso, as pessoas continuarão a se referir aos planetas identificados orbitando outras estrelas como planetas, e nós continuaremos a nos referir a objetos esféricos em nosso e em outros sistemas solares como planetas.

Por fim, a nomenclatura “oficial” vai terminar se curvando ao bom senso e ao uso científico comum. A palavra “planeta” antedata e transcende a ciência. A linguagem é maleável e responde às mudanças na cultura. Palavras não são definidas por votações. Paradigmas científicos tampouco.



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