Novas vacinas contra a malária, com potencial para salvar dezenas de milhares de vidas por ano, devem muito da fase inicial de seu desenvolvimento a uma ex-refugiada de origem austríaca, que cresceu em São Paulo e passou a maior parte de sua carreira científica nos EUA, sem nunca cortar seus laços com o Brasil. Essa pesquisadora, a médica Ruth Sonntag Nussenzweig, morreu na noite deste domingo (1), aos 89 anos, de embolia pulmonar.

De origem judia, filha dos médicos Eugenia e Baruch Sonntag, Ruth nasceu em Viena e veio para a capital paulista em 1939, aos 11 anos. A família deixara a Áustria por causa da crescente perseguição aos judeus promovida pelo regime nazista (a Alemanha de Hitler havia anexado o território austríaco pouco tempo antes).

Foi durante o curso de medicina na USP que ela iniciou um namoro tanto científico quanto sentimental com o futuro marido, Victor Nussenzweig, outro jovem judeu, de família polonesa. Na época militante comunista, atraído por ideais revolucionários, Nussenzweig contaria mais tarde que foi convencido por Ruth a tentar mudar o mundo pela ciência, e não pela política.

Em um de seus primeiros trabalhos conjuntos, os dois desenvolveram um método inovador e menos “medieval”, como diziam eles, para identificar a presença do parasita do mal de Chagas no sangue de possíveis doentes. Antes das inovações introduzidas por eles, um barbeiro, inseto transmissor da doença, era induzido a picar diretamente a pessoa e depois examinado; o casal achou uma maneira de oferecer apenas a amostra de sangue ao bicho, sem o contato com o paciente.

Após temporadas de pesquisa de campo no Nordeste, uma tentativa frustrada de ida aos EUA (um diplomata americano, sabendo das inclinações esquerdistas de Victor, chegou a mandar que ele pedisse emprego a Stálin) e um pós-doutorado na França, Ruth e Victor finalmente conseguiram uma bolsa para trabalhar numa instituição americana, a NYU (Universidade de Nova York), que lhes parecia oferecer melhores oportunidades de pesquisa.

Depois de dois anos por lá, porém, já queriam voltar a São Paulo. Mas o retorno se deu quando o golpe militar de 1964 tinha acabado de acontecer, e um coronel instalado na faculdade de medicina quis ter uma longa conversa com Victor assim que ele apareceu por lá. Voltaram logo depois, portanto, para a NYU, onde se tornaram professores em caráter permanente.

Foi já nessa época, em 1967, que Ruth publicou o trabalho que mais marcaria sua carreira. Ela demonstrou que era possível produzir imunidade contra o parasita da malária depois de banhar o micróbio numa dose de radiação ultravioleta e inoculá-lo em camundongos.

Essa prova de princípio muito simples revelou que uma vacina contra a doença não seria um alvo totalmente inviável. A continuidade do trabalho da pesquisadora mostrou qual era a proteína envolvida no processo de imunização e a região exata da molécula essencial para esse processo.

Esses dados seriam importantes para o desenvolvimento da vacina RTS,S (ou Mosquirix), que está em fase inicial de testes em países africanos, os mais afetados pela doença. O nível de proteção não é alto, em torno de 40%, mas ainda assim deve ser o suficiente para salvar vidas. “Vai funcionar, inclusive em crianças”, disse Ruth à Folha em 2017.

DESCENDÊNCIA CIENTÍFICA

Com dificuldades de mobilidade por causa de uma queda há alguns anos, a pesquisadora precisou parar de orientar alunos e não pôde realizar o desejo de voltar para o Brasil em definitivo.

Costumava dizer que a única vantagem dos EUA era a facilidade para fazer pesquisa, mas declarou certa vez à revista “Pesquisa Fapesp” que nunca se acostumara ao país e que praticamente todos os seus amigos ainda viviam no Brasil. Boa parte de seus familiares também seguiu a carreira acadêmica.

O filho Michel é professor da Universidade Rockefeller e membro da Academia de Ciências americana; a filha, Sonia, antropóloga da Escola de Sociologia e Política de São Paulo; e o outro filho, André, atua nos NIH (Institutos Nacionais de Saúde dos EUA). 



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