Como os primeiros seres humanos chegaram à América?

Depois de cruzarem da Ásia para o Alasca, os aventureiros da Era do Gelo podem ter percorrido duas rotas: a pé, pelo interior do que que hoje é o Canadá, por uma passagem gramada entre duas grandes áreas recobertas por gelo, ou diretamente rumo ao sul pela costa do Pacífico.

Os cientistas vêm debatendo essas duas teorias, e nos últimos anos a ideia de que a rota costeira foi a usada para o assentamento inicial conquistou novas adesões, por conta de descobertas arqueológicas como um conjunto de pegadas de 13 mil anos de idade em uma ilha na província canadense da Columbia Britânica. 

Agora, geólogos que estão estudando rochedos e o leito rochoso de algumas ilhas a sudeste do Alasca encontraram indícios de uma rota livre de gelo que teria existido cerca de 17 mil anos atrás ao longo da costa e, certamente, poderia ter recebido trânsito humano.

“Não estamos afirmando que eles definitivamente tomaram a rota da costa”, disse Alia Lesnek, aluna de pós-graduação na Universidade de Buffalo e principal autora do estudo. “Mas agora temos algumas das primeiras provas diretas de que teria sido possível seguir esse caminho.”

A constatação, publicada na quarta-feira (30) em um estudo na revista acadêmica Science Advances, oferece sustentação à teoria de que as primeiras pessoas a povoar a América foram navegadores que viajavam por mar de ilha em ilha.

No terceiro trimestre de 2015, Lesnek desembarcou de um helicóptero em um vale gramado na ilha Baker, a sudeste do Alasca. Lá ela viu uma grande rocha cinzenta que, para a maioria das pessoas, não teria parecido notável.

Mas, para Lesnek, a superfície lisa da rocha e seus contornos arredondados eram indicações do seu passado remoto. O rochedo havia sido carregado para o local por geleiras gigantes, milhares de anos atrás.

Ela apanhou uma serra elétrica de lâmina larga e, segurando-a com as duas mãos, fez um corte na superfície da rocha. “É empolgante, mas também causa algum nervosismo, porque a lâmina se move muito rápido e faz um barulho forte, um riiiinnn”, disse a pesquisadora.

Depois de criar um corte com alguns centímetros de profundidade, ela usou um cinzel e um martelo pneumático para arrancar uma lasca da rocha. Foi uma das muitas amostras de rochedos e do leito rochoso que Lesnek e seus colegas recolheram em quatro ilhas diferentes do arquipélago de Alexander, ao sudeste do Alasca.

De volta ao laboratório, a equipe determinou há quanto tempo as amostras de rocha haviam sido aprisionadas pelas geleiras. Uma geleira é como um rio de movimento lento, que captura rochas e as carrega. Quando o gelo derrete, as rochas ficam no lugar a que foram conduzidas e recebem radiação cósmica, que os cientistas são capazes de analisar.

“É como um bronzeado da pedra”, disse Lesnek.

A equipe concluiu que as ilhas estavam cobertas por gelo até cerca de 15 mil a 17 mil anos atrás. A descoberta sugere que as geleiras que cobriam aquela parte da costa do Pacífico se derreteram e possivelmente criaram um percurso para os seres humanos na hora certa.

A datação coincide com indícios arqueológicos e genéticos recentemente descobertos que sugerem que o primeiro pulso de imigração humana para a América aconteceu cerca de 16 mil anos atrás, de acordo com a equipe.

As camadas de gelo que cobriam o corredor migratório localizado no interior do Canadá não derreteram até 13 mil ou 14 mil anos atrás, disse Jason Briner, geólogo da Universidade de Buffalo e um dos autores do estudo.

“Nossos dados sugerem que a rota costeira passou a estar disponível cerca de 17 mil anos atrás”, disse Briner. “Isso antecede em cerca de três mil a quatro mil anos a abertura da rota pelo interior.”

A equipe também datou alguns ossos de foca que haviam sido descobertos anteriormente em uma caverna e constatou que os animais estavam presentes cerca de 17 mil anos atrás. Os ossos sugerem que, se pessoas tivessem seguido a rota costeira, haveria alimentos disponíveis.

Briner disse que o estudo de sua equipe cobria apenas cerca de 10% da área do corredor costeiro e que futuros trabalhos de campo empregarão os mesmos métodos de datação em outras porções da rota.

“As datas concordam com outras cadeias de provas e sua interpretação é confiável”, disso E James Dixon, antropólogo e professor emérito da Universidade do Novo México, que não participou do estudo. “Ainda que a pesquisa não prove a hipótese da migração costeira, certamente serve para reforçá-la.”

Tradução de Paulo Migliacci



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