A edição desta sexta-feira (28) da revista Science, uma das publicações de divulgação científica mais renomadas internacionalmente, dedica dois artigos ao Brasil.

O incêndio do Museu Nacional, no início do mês no Rio, é o mote dos textos “Falta de apoio à ciência desaponta o Brasil” e “Crise no Brasil”, ambos em inglês.

O primeiro é assinado por 21 cientistas de quatro instituições —as americanas Universidade Cornell, Universidade da Flórida e Academia de Ciências da Califórnia, além da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mantenedora do museu destruído.

O segundo texto é um editorial assinado pela astrofísica Beatriz Barbuy que defende as eleições como oportunidade para que o país repense os investimentos em ciência.

A Science é semanal, com sede em Washington, e tem cerca de 600 mil leitores especializados. 

“Aumento nos fundos destinados ao setor científico poderiam ter evitado o fogo devastador do Museu Nacional”, dizem os cientistas no artigo publicado na página 1322 da revista.

O texto enfatiza que as coleções são importantes para “avançar em nossa compreensão de como as peças da natureza surgiram e se encaixam e até mesmo para prever o futuro ecológico e evolutivo da biodiversidade do planeta”.

“As extensas coleções de história natural do museu, meticulosamente acumuladas ao longo de mais de dois séculos, documentaram a mudança na identidade e distribuição das espécies ao longo do tempo, registraram a cultura e as línguas nativas dos habitantes sul-americanos e arquivaram a origem e o progresso histórico de uma nação”, pontuam os cientistas. “A magnitude dessa perda é impressionante —não apenas para o Brasil, mas para o mundo.”

Os cientistas argumentam que nos últimos cinco anos, o financiamento destinado ao Museu Nacional havia diminuído “substancialmente”. Também lembraram que investimentos em reformas, segurança e proteção foram nulos “há décadas”.

Eles ainda contextualizam que o incidente do Museu Nacional se soma a outros que vitimaram, recentemente, instituições correlatas brasileiras —o Instituto Butantan, em 2010, e o Museu da Língua Portuguesa, em 2015, em São Paulo.

“Nos últimos anos, houve um grande declínio no orçamento para pesquisa científica básica”, prossegue o texto. “A perda de coleções únicas e insubstituíveis, por causa de investimentos federais medíocres em ciência, adiciona sal à ferida crescente.”

Por fim, os cientistas reconhecem os esforços de curadores e funcionários do Museu, “trabalhando 24 horas por dia”. “Coleções de museus são tesouros nacionais atemporais que representam nossas histórias, culturas e conquistas científicas”, clamam. “Precisamos investir e proteger nossos museus e coleções para o benefício da ciência e da sociedade em todo o mundo.”

“Este evento devastador precisa servir como alerta para que o Brasil reforce, em vez de negligenciar, os empreendimentos científicos. E as eleições gerais, que ocorrem no próximo mês, são uma oportunidade para que o Brasil passe a priorizar a ciência”, escreve o artigo ‘Crise no Brasil’, outro texto sobre o país nesta edição da revista.

Professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP e ex-vice-presidente da União Astronômica Internacional, Barbuy diz que o incêndio “foi um trágico lembrete para o Brasil e para o resto do mundo de como é importante para as sociedades apoiar instituições e empreendimentos que preservam e promovem a ciência e a cultura”.

Ela diz que a crise econômica tem sido utilizada como justificativa para o governo brasileiro frear investimentos científicos —e cita a perda de oportunidades em sua área, a astronomia.

“[Na Europa], a produção de universidades em pesquisa impulsionou a economia, gerando aproximadamente 100 bilhões de euros em valor bruto, além de 1,3 milhão de empregos”, diz o texto.



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