A pauta política internacional parece ter retrocedido 40 anos e ressuscitado temas da Guerra Fria. Quem diria que, nesta altura do campeonato de sandice, o mundo estaria mais preocupado com desnuclearização do que com descarbonização?

As cabeleiras radioativas de Kim Jong-un e Donald Trump ocupam mais espaço no noticiário do que seria de desejar, mas ninguém duvida de que o mereçam. O ridículo nunca foi incompatível com manchetes, mesmo em publicações sérias, quando as figuras humorísticas detêm poder para dizimar milhões de pessoas —Vladimir Putin que o diga.

Os petardos de Kim e Trump preocupam porque podem explodir de uma hora para outra, ainda que isso seja muito improvável. Já o aquecimento global, ameaça mais real e em curso, põe a humanidade sob risco em fogo lento. Fazendo algo hoje, ou deixando de fazer, nenhuma diferença se notará amanhã.

É a receita certa para empurrar as coisas com a barriga, ou pelo menos para não prestar atenção ao que deveria estar sendo feito. Aliás, nem mesmo o que já está acontecendo tem recebido o destaque devido.

Considere o Reino Unido. Dados publicados recentemente pelo governo britânico indicam que o país reduziu muito suas emissões de carbono, como o CO2 que sai dos escapamentos dos veículos movidos a gasolina e diesel ou despejado por chaminés de usinas termelétricas a carvão, óleo ou gás natural.

Uma redução tão grande que os britânicos lograram retornar aos níveis de emissões nacionais de… 1890! Sim, de 128 anos atrás, na época em que Oscar Wilde publicava em capítulos em uma revista um romance célebre, “O Retrato de Dorian Gray”.

A conclusão está numa análise dos dados feita pelo boletim “CarbonBrief”.

A população britânica não chegava então a 38 milhões de pessoas. Hoje são mais de 63 milhões. Naquele tempo havia muito menos automóveis do que hoje, menos trens, menos casas aquecidas —menos tudo, enfim.

Tamanha redução põe o país 38% abaixo dos níveis de 1990, um ano-base muito usado como referência para as metas nacionais adotados no quadro do Acordo de Paris (2015). Ainda distante dos 80% prometidos pelos britânicos, que têm prazo até o ano 2050 para alcançar a meta, mas ainda assim no rumo certo.

A façanha foi facilitada, é verdade, por alguns invernos amenos, quando se reduz o consumo de energia para aquecimento. Com o frio que assola a Europa neste ano, é possível que volte a subir a utilização de combustíveis fósseis, em especial gás natural (o menos danoso deles, se comparado com carvão e óleo).

De todo modo, o caso britânico demonstra que há lugares no mundo em que não estão todos paralisados diante de televisores para saber das últimas bobagens perigosas de Trump ou Temer, Kim ou Bolsonaro.

Além de ter ajudado a forçar o ditador norte-coreano a sair da toca, a China também vem dando boa contribuição para não detonar de vez a bomba do carbono. Muito de seu crescimento econômico explosivo das últimas décadas teve o carvão como propelente, mas isso começou a mudar a partir de 2013.

É verdade que, após quedas nos três anos anteriores, a queima de carvão subiu em 2017 —mas só 0,4%, segundo a Reuters, praticamente uma estagnação. E a participação desse fóssil na matriz energética chinesa continua caindo e está em 60,4%, no caminho para ficar abaixo de 58% em 2020, conforme compromisso adotado por Pequim.

O mundo não está parado diante da ameaça da mudança climática global. Nossos olhos é que estão congelados diante da TV, mesmerizados pela chance de ver a improvável reunião dos topetes de norte-coreano e norte-americano em uma mesma sala.

Viva a diplomacia capilar, como diz Marcos Augusto Gonçalves. Nada se resolve, mas pelo menos a gente se diverte.



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