“Belíssimo e aterrorizante.” “Misterioso e sedutor.” “Meio louco demais para mim.”

Essas são algumas das reações de pessoas que assistiram “Aniquilação”, o novo filme de Alex Garland, uma fantasia de ficção científica que, com certeza, vai deixar o leitor perturbado por alguns dias.

No seu filme anterior, o sensacional “Ex Machina”, Garland explorou o perigo latente da pesquisa em inteligência artificial, onde máquinas poderão ultrapassar nossas habilidades intelectuais e aprender rapidamente a nos manipular, explorando nossos pontos mais fracos.

No caso do filme, o ponto fraco era nossa necessidade de amar e de sermos amados, emoções que máquinas encontram com indiferença. A mensagem de “Ex Machina” é clara: ao brincar com inteligência, seremos nós a nos queimar.

Atenção: se o leitor pretende ver o filme, melhor ler o resto desta resenha após fazê-lo.

O novo filme de Garland, baseado no livro homônimo de Jeff VanderMeer, explora um outro tipo de manipulação, a essência genética da vida. O filme abre com um meteorito caindo perto de um farol em alguma parte da costa leste dos EUA.

Já aqui vemos que este meteorito é diferente. Usualmente, mesmo um meteorito pequeno (digamos, do tamanho de uma melancia) causaria algum nível de destruição. Mas não este. Em vez de explosão, cria uma estranha distorção na luz à sua volta.

Quando conhecemos Lena (a excelente Natalie Portman), uma professora de biologia celular na Universidade de Johns Hopkins e ex-militar, ela está dando uma aula sobre a divisão de células cancerosas. Na luz de um microscópio, vemos a vida em ação, células se dividindo com um propósito perverso: a vida que destrói a vida.

O tema principal de “Aniquilação” é que a vida, terrestre ou alienígena, tem como propósito se manter viva. Não responde a valores morais, e não faz escolhas baseadas em algum plano pré-determinado. (A palavra mais sofisticada aqui é teleologia.)

O que a vida faz, e Garland mostra isso de forma belíssima, é encontrar meios de se reproduzir com uma urgência tão intensa que chega a nos enganar, parecendo mesmo ter algum tipo de objetivo final.

Quando assistimos a vídeos de células se reproduzindo, é natural perguntar por que fazem isso. Qual a força misteriosa que as compele a se dividir?

Seres humanos são programados a justificar qualquer ação como sendo resultado de uma causa com um propósito definido. É difícil, para nós, aceitar que a vida não tem um propósito, que sua missão é uma só: se perpetuar.

O que nos confunde é que, de todas as formas de vida que conhecemos, somos a única capaz de entender conceitos como razão e propósito.

Nossa maior dificuldade, enquanto seres humanos, é termos a habilidade de fazer perguntas, sabendo que muitas delas não têm resposta.

O marido de Lena também era militar, um sargento de um time de operações especiais que desapareceu em uma missão e foi considerado morto.

O filme mostra o desespero de Lena, que não sabia ao certo o que havia ocorrido com o marido. Aprendemos que ele participou da missão de exploração do Brilho, a estranha cortina que circunda a área de impacto do meteorito, e que emite uma estranha luz que vibra com as cores do arco-íris.

Nenhuma das várias missões enviadas ao Brilho retornou com respostas —ou com sobreviventes.

Lena acaba se envolvendo com o projeto e participa de uma missão só com mulheres, liderada pela doutora Ventress (a melancólica Jennifer Jason Leigh), uma psicóloga condenada pelo câncer. Dado o fracasso das missões anteriores, a expectativa de sucesso era bem pequena. Elas sabiam que era uma missão suicida.

No interior do Brilho, a vida assume uma dimensão completamente diferente. Em cenas de rara beleza, vemos uma profusão de criaturas estranhas, flores que nascem do mesmo caule, mas que são de espécies diferentes, animais mutantes de beleza mítica ou aterrorizantes (o urso me deu pesadelos), um caleidoscópio misturando formas de vida terrestre em combinações de aparência extraterrestre.

A física do grupo, Jodie Radek (Tessa Thompson), descobre a resposta: estamos acostumados a ver a luz refratando quando passa de um meio a outro, por exemplo, do ar para a água.

No Brilho, porém, a própria vida é refratada, o DNA de espécies distintas se misturando, resultando em vida recriando vida de forma autônoma, sem um criador ou o seu propósito. Os resultados são incríveis: plantas que crescem na forma de humanos, humanos que se transformam em plantas, musgos de aspecto psicodélico, animais que também são plantas, misturas que demonstram a unidade essencial da vida, tema que exploramos aqui recentemente.

Quando Lena se aproxima do farol, o epicentro da refração de DNA, nos deparamos com uma revelação terrível. Com cada vez mais sofisticação, as sementes extraterrestres que iniciaram o processo caleidoscópico dentro do Brilho, passam a copiar seres humanos: a vida clonando a vida.

Como Lena responde mais tarde ao seu interlocutor, que lhe pergunta se os extraterrestres tentaram se comunicar com ela: “Eles apenas reagiram a mim”. Copiaram seus movimentos, aprendendo a se tornar uma outra Lena.

E o consciente humano? Será que esses clones são capazes de copiar as memórias e personalidades de seus modelos originais?

Aqui o filme é vago, oferecendo apenas algumas pistas incompletas. Quando, no final, Lena reencontra o clone de seu marido, ele a chama pelo seu nome, parecendo se lembrar, em parte, do passado que não viveu. Quando se abraçam, vemos, nos olhos dos dois, um brilho não-humano, sinal de que a vida extraterrestre triunfou, sobrevivendo fora do Brilho. Seu objetivo, imaginamos, é recriar a vida na Terra.

Seja qual for o tipo de vida extraterrestre que criou o Brilho, é mais forte do que a vida terrestre.

Como em “Ex Machina”, o ponto de Garland —fora nos maravilhar com cenas de incrível beleza— é soar o alarme. Pela primeira vez na história, podemos manipular a vida diretamente ao nível genético, o que fazemos com eficiência cada vez maior.

O que será de nós se, como no caso (ainda hipotético) da inteligência artificial, perdermos o controle das nossas criações e elas se tornarem mais eficientes do que nós no jogo da vida? Será que estamos decretando o nosso fim ao explorarmos os segredos da engenharia genética?

Esses são temas profundos e preocupantes. Garland, um artista de primeira ordem, usa a sua criatividade para nos alertar do perigo sedutor de irmos longe demais ao longo de um caminho de onde corremos o risco de não retornar.



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