Neste domingo (22) saiu na revista sãopaulo, da Folha, uma lista com os 27 melhores médicos, em 11 especialidades, apontados por uma pesquisa do Datafolha. Coube a mim entrevistá-los e escrever um pequeno perfil de cada um.

Um fato, claro, chamou a minha atenção e de boa parte dos leitores: nessa lista todos os indicados são homens e apenas um não é branco –o ortopedista Emerson Honda. Muitas pessoas manifestaram em redes sociais sua insatisfação por não haver médicas na lista.

Na pesquisa Datafolha, 34% dos 822 entrevistados eram mulheres –mais de um terço. Na ortopedia, elas eram 6% dos respondentes; 22% da cardiologia; 43% da ginecologia-obstetrícia e 52% entre os pediatras, por exemplo.

Como explicar o “27 a 0” de homens versus mulheres? Por que nem na pediatria a vencedora é uma mulher?

O colega Marcelo Soares, jornalista especializado em análise de dados e fã de rock, faz uma analogia interessante: se perguntarmos a músicos especialistas em rock quem são os melhores em cada instrumento, provavelmente os vencedores seriam homens. “Difícil não dar Jimi Hendrix na guitarra, difícil não dar algo como Freddie Mercury no vocal. Não que não haja mulheres no mesmo nível, não que seja exatamente machismo contra elas, mas porque esses nomes são queridos por todos há muito tempo.”

Como poucos nomes são eleitos por categoria, o “peso da tradição”, como diz Soares, pende para o lado dos homens.

MACHISMO

De forma alguma esse raciocínio invalida a constatação de que ainda vivemos em uma sociedade bastante desequilibrada em termos de gênero e que isso vale também para a medicina. Não é muito diferente do que acontece nas chamadas ciências duras, na qual dificilmente mulheres atingem e se mantém em posições de liderança.

Médicas são, em média, quase 5 anos mais jovens que os médicos e correspondem a apenas 45,6% dos profissionais. Os dados são do levantamento “Demografia Médica do Brasil 2018”.

Entre os profissionais com 65 e 69 anos, apenas 28,3% são mulheres. Entre aqueles com 70 anos ou mais, o número cai para 20,5%

Os médicos entrevistados pelo Datafolha tinham, em média, 52 anos de idade e elegeram colegas, em média, 17 anos mais velhos.

É possível concluir, apenas olhando para os números, que há ainda poucas mulheres com a experiência que alguns médicos homens têm.

Talvez ainda demore alguns anos para o cenário mudar, mas tudo indica que isso vai acontecer. Mulheres já são a maioria no estrato mais jovem, entre profissionais com 20 e 29 anos: 57,4% do total.

Distribuição de homens e mulheres na medicina de acordo com faixa etária (fonte: Reprodução/Demografia Médica no Brasil 2018)

 

RAÇA

Não há muitos dados sobre o número de médicos negros, especialmente ao longo da história, mas a pesquisa “Perfil e percepção dos recém-graduados em Medicina”, feita com 4.601 novos médicos mostra que apenas 1,8% desses egressos se declaram negros. Pardos somam 16,2%.

A discrepância em relação à população brasileira é visível: no país, 7,8% se declaram negros e 43,1% se declaram pardos.


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