Uma boa notícia para a Amazônia: a população das gigantes e bastante exploradas tartarugas-da-amazônia aumentou graças aos esforços de proteção das comunidades locais.

A proteção das praias durante o período de reprodução das tartarugas evitou que os ninhos dos animais fossem atacados. E o trabalho de vigilância gerou um expressivo efeito cascata no ecossistema, que foi além das tartarugas-da-amazônia (Podocnemis expansa) e ajudou também outras espécies, segundo pesquisa publicada nesta terça (13) na revista científica Nature Sustainability.

Para avaliar os possíveis impactos dessa proteção não oficial, pesquisadores analisaram 15 praias protegidas presentes no rio Juruá, um dos grandes afluentes do rio Amazonas. Em seguida, eles as compararam com outras praias vizinhas (para avaliar duas áreas com características semelhantes) e não protegidas.

Além da análise dos ninhos e nascimentos de tartarugas-da-amazônia, os cientistas também se atentaram para a presença de aves, iguanas, jacarés, botos e grandes peixes —com uma ajuda extra de sonares subaquáticos.

“Quando você protege uma praia dessas com uma base comunitária ou institucional, os benefícios demográficos repercutem em todo o ecossistema e não só naquela espécie que você está querendo proteger”, diz Carlos Peres, pesquisador da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, e um dos responsáveis pelo estudo.

Segundo os dados obtidos pelos pesquisadores, hoje há nove vezes mais tartarugas nascendo nas praias do que havia em 1977, o que equivale a mais de 70 mil nascimentos anuais nas praias protegidas.

A importância da vigilância fica clara em outro dado obtido pela pesquisa. Dos 2.000 ninhos que estavam em praias protegidas pelas comunidades locais, somente 2% foram atacados por caçadores. Nas áreas não protegidas, 99% dos 202 ninhos acompanhados sofreram ataques.

“A grande maioria das praias não é protegida e deserta”, afirma Peres, segundo o qual há cerca de 400 praias nas margens do rio Juruá. “Nas praias protegidas, toda a fauna está lá.”

Outras espécies que se mostraram beneficiadas foram a ave corta-água (Rynchops niger), as gaivotas (Phaetusa simplex), bacurau-da-praia (Chordeiles rupestris), jacaré-açu, golfinhos de água doce, iguanas-verdes e grandes bagres.

A quantidade de ninhos de aves migratórias mostra o efeito cascata. Nas praias protegidas, os pesquisadores encontraram 8.700 desses ninhos. Nas praias não protegidas, só 371.

O interesse no animal levou ao declínio de sua população —uma queda de 30% nos últimos 90 anos, segundo dados do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade)— e à classificação de quase ameaçada de extinção, com necessidade de esforços de fiscalização e manejo para manter a espécie em níveis populacionais saudáveis. Em algumas regiões, já é difícil encontrar o bicho.

A captura dos animais ou de seus ovos ser uma prática proibidas pela legislação brasileira. Ainda assim,  a carne de tartaruga é uma iguaria da culinária amazônica, e um animal silvestre adulto pode ser vendido por valores altos, segundo Peres. “A procura por esse recurso é muito forte. Quelônios na Amazônia são como um caviar”, diz.

Com a pressão do turismo, diminuição do habitat dos bichos e um crescente interesse comercial, essas tartarugas estariam em perigo de extinção se não fossem os vigilantes locais, parte do Programa Quelônios da Amazônia (PQA), segundo João Pessoa Moreira, coordenador de gestão da biodiversidade, florestas e recuperação ambiental (CGBIO), do Ibama.

O PQA foi criado em 1979 e, graças ao manejo realizado pelo programa, ajudou no nascimento de cerca de 79 milhões de tartarugas.

Em geral, os protetores das praias têm histórico familiar no ofício, com pais e avós que já faziam a mesma vigilância. E não recebem muito dinheiro pela atividade, o que gera insatisfação.

“Esses caras não fariam isso por compensação financeira. Com o tempo que perdem na praia, valeria muito a pena plantar mandioca, fazer outra coisa. Há um custo pessoal”, afirma Peres.

Entre as conclusões do estudo está a necessidade de fortalecer as compensações recebidas pelas comunidades locais para, dessa forma, consolidar a proteção. O maior investimento na iniciativa, segundo o pesquisador de East Anglia, não exigiria grandes recursos.

Os custos são exemplificados por um projeto de crowdfunding que será lançado no próximo ano por Peres. Com a doação de 3 centavos de dólar, uma pessoa poderá garantir a sobrevivência de uma tartaruga.

Moreira afirma que já tem um projeto em andamento para que os monitores locais das praias sejam contratados e passem a fazer parte do Ibama.

“Isso ajudaria muito, porque garantia fonte de renda para esses trabalhadores e atrairia mais gente para esse trabalho”, diz. “O nosso principal colaborador é a comunidade. O Ibama não tem pessoal para tocar sozinho isso.”

Sobre o consumo da carne de tartaruga, Peres afirma que é preciso levar em conta a cultura culinária amazônica.

“Se a pessoa não pode comer as tartarugas, não pode comer a caça, não pode comer o peixe, não pode fazer nada, então para que serve aquele rio e aquela floresta? Para nada. Então, o que ele vai fazer? Vai convidar um pecuarista para chegar lá e colocar a mata abaixo.”

Segundo Moreira, as tartarugas costumam ser capturadas quando vão para as praias nidificar, o que traz um duplo problema: os ovos são perdidos, e o animal demora a chegar à idade reprodutiva.

O caminho para a conservação, segundo Peres, é incentivar a valorização dos serviços do ecossistema e seu uso de maneira responsável e sustentável, tomando os devidos cuidado para não haver exploração comercial. 

O especialista do Ibama diz que o plano de ação destinado às tartarugas já traça possibilidades para consumo de animais criados em cativeiro —o que ainda enfrenta problemas logísticos— e que futuramente, após mais pesquisa e dados sobre o assunto, pode-se começar a pensar em manejo sustentável na natureza.

“Em ecologia da conservação é muito raro uma boa notícia”, diz Peres. Mas ela aconteceu.



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