Nos últimos anos, alguns autores vêm criticando as ideias da física de ponta, em particular a física de partículas e a cosmologia, argumentando que físicos trabalhando nessas áreas foram longe demais. Por “longe demais” quero dizer que trabalham com hipóteses muito além do pensamento científico tradicional, que não são testáveis nem mesmo num futuro distante; talvez sejam mesmo intestáveis.

Exemplos incluem “O Problema com a Física”, de Lee Smolin, “Nem Mesmo Errado”, de Peter Woyt, e o meu “Criação Imperfeita”. Este mês, a física e autora alemã Sabine Hossenfelder, que tem um dos blogs mais populares da física e trabalha com gravidade quântica e outros problemas da física fundamental, publicou a sua versão da critica, extremamente clara e corajosa. (Gravidade quântica é a tentativa de estender a teoria da relatividade geral de Einstein, que descreve a gravidade como sendo a curvatura do espaço em torno de um corpo com massa, ao mundo quântico, o mundo dos átomos e das partículas subatômicas). Seu ponto central: usar um ideal de estética matemática como critério de verdade ou como um princípio natural está levando a física a uma situação inaceitável.

Semana passada, conversei com a Sabine, que conheço bem, sobre seu livro, suas ideias e porque considera importante criticar o que está acontecendo. Eis suas respostas. Devido ao tamanho da entrevista, vou dividi-la em duas partes; a próxima fica para a semana que vem.

Qual o assunto da sua pesquisa atual?

De modo geral, estou interessada no que a matemática pode nos dizer sobre nós e o mundo. Minha pesquisa, em particular, tem focado principalmente em como testar experimentalmente a gravidade quântica.

Seu blog Backreaction é muito popular, conhecido pela sua lucidez quando você apresenta problemas da física de ponta. Por que você considera importante um físico teórico escrever um blog? Qual seu objetivo principal?

Eu simplesmente escrevo sobre o que estou interessada e ofereço uma plataforma para as pessoas discutirem. Com frequência, acabo ajustando erros em manchetes que aparecem em vários tipos de mídia, impressa e digital. Exagerar resultados em pesquisas não só é péssimo para a percepção do público sobre o que fazemos mas, também, é ruim para a própria disciplina, porque acaba influenciando o que os pesquisadores fazem. Mas não sou uma missionária, apenas eu mesma.

Quais, na sua opinião, são os três problemas principais em física de partículas e cosmologia? Você vê algum caminho para o progresso num futuro próximo para algum deles? Se sim, qual?

Matéria escura, gravidade quântica e o problema de medição em mecânica quântica. Não temos nenhuma pista experimental para eles. No caso da matéria escura, estou cautelosamente otimista que missões planejadas para a próxima década vão obter dados que serão muito úteis. No caso da gravidade quântica, estamos nos aproximando de testes experimentais, se bem que alguns ainda vão demorar. No caso do problema da medição, não temos a menor ideia. Parte do problema é que poucos trabalham na teoria relacionada com isso.

Vamos falar do seu livro novo, “Perdidos em Matemática: Como a Beleza Leva a Física na Direção Errada”. O livro é uma crítica pertinente ao estado atual da física teórica, em particular cosmologia e física de partículas. Por que você vê essa crítica como sendo necessária? O que você vai consegue com ela?

Nas áreas de pesquisa que estou criticando físicos teóricos gastam um tempo enorme tentando resolver problemas que não existem. Fazem isso porque estão desapontados com as teorias atuais, que não são belas o suficiente para eles. Essa metodologia é ruim para a ciência e precisa parar. O problema é que se construirmos experimentos para testar hipóteses que não têm um respaldo teórico forte, o que obtemos no máximo são resultados nulos. (Por exemplo, essa partícula não existe com essa massa.) Resultados nulos, claro, são ainda resultados, mas não são bons guias para o desenvolvimento de teorias. Portanto, fazemos experimentos sem direção, que não rendem resultados interessantes, e os teóricos continuam inventando teorias sem a menor evidência, e assim por diante. Isso vem ocorrendo por décadas.

Escrevi meu livro porque acredito que o público está sendo mal informado. Vemos um monte de livros populares falando sobre supersimetria e teorias de cordas e multiversos, de como são elegantes e belas essas teorias. E as pessoas acreditam no que leem, e acham que poderemos testar essas teorias em breve, mesmo que isso não seja verdade e que os experimentos que temos agora não tenham achado nada para apoiar essas ideias. Alguns cientistas vêm dizendo ao público que paga os impostos que financiam essas pesquisas que devem investir dinheiro num colisor de partículas maior, num telescópio maior, e o colisor e o telescópio são construídos, mas a evidência para a supersimetria e o multiverso continua sumida. Sem brincadeira, não podemos criticar as pessoas que dizem que esses físicos são uns embrulhões.

Espero que meu livro motive físicos nessas áreas a pensar com cuidado sobre o que está acontecendo aqui, tanto na sua pesquisa como no modo como comunicam sua pesquisa.

 

Semana que vem continuamos, falando da divisão na comunidade científica entre os que acreditam no multiverso e no princípio antrópico e os que acham isso tudo uma grande bobagem.



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