Apoio da família e de amigos próximos, informação de qualidade e força de vontade são os fatores determinantes na vida de quem é ou foi paciente de câncer. Além disso, o engajamento do paciente na disseminação de informação pode beneficiar não só ele mesmo, descobrem pessoas diagnosticadas.

Ramon Cordovil, técnico em mecânica industrial, ficou conhecido ao aparecer na arquibancada de um jogo de seu time do coração, o Paysandu (Pará), com uma faixa com as frases “#DoeMedula #SomosTodosCampeões”. Estava careca e com o rosto protegido por uma máscara, devido ao tratamento da leucemia mieloide aguda contra a qual lutava havia quatro anos. Estava na segunda recidiva.

O objetivo de Cordovil era incentivar o transplante de medula e divulgar que se trata de um procedimento simples. No seu caso, uma de suas irmãs, 100% compatível, foi sua doadora no primeiro transplante.

Vânia Castanheira, hoje coach de bem-estar e saúde e escritora, estava casada havia pouco mais de um ano e meio e planejava a primeira gravidez, no início de 2013, quando descobriu um câncer de mama.

A necessidade de falar da doença e do seu tratamento em redes sociais foi uma surpresa tanto para Cordovil quanto para Castanheira, que contaram suas experiências no seminário Tecnologia contra o câncer, realizado pela Folha nesta quinta-feira (6), com patrocínio do laboratório Roche e apoio do Hospital Sírio-Libanês e da farmacêutica Abbvie.

Até então distante das redes sociais, Castanheira em certo ponto do tratamento, sentiu a necessidade de contar em um blog tudo o que estava acontecendo, quando poucas pessoas sabiam sobre sua doença.

“Quando senti necessidade de compartilhar tanta informação, resolvi criar o blog”, diz ela. “Preciso que as pessoas saibam disso.”

Com o tempo, o blog cresceu e deu origem ao livro “O Câncer Foi minha Cura”. Castanheira também grava vídeos tutoriais para ajudar pacientes. Afirma que compartilhar as informações e ouvir das pessoas como isso as ajudou, é um processo catártico que faz bem aos outros e a ela mesma. “Um processo de autoterapia”, segundo ela.

Cordovil ficou sabendo que tinha câncer, em 2013. Estava trabalhando no interior do Pará quando passou mal e foi encaminhado para um hospital em Belém. A médica que o atendeu foi quem lhe disse que iriam tratar o câncer. Ela achou que Cordovil já sabia. “Foi como uma sentença de morte para mim.”

Ficou em coma induzido por 22 dias. “Estava tudo pronto para o meu casamento, mas no dia eu estava dormindo. Deveria estar esperando a noiva no altar e ela é que estava esperando eu acordar”, conta.

Segundo Cordovil, acordar e ouvir de familiares que eles estavam ali para apoiá-lo no que fosse preciso foi essencial para tirá-lo de pensamentos depressivos.

Castanheira alerta para o perigo da busca de informações na internet assim que ficam sabendo de um possível problema. Ela própria pesquisou “carcinoma de duto mamário grau dois” e, assim que viu que era um câncer, fechou o navegador. Sentiu que as informações seriam mais causa de angústia que de ajuda e que era o momento de contar com o especialista.

José Ernesto Succi, médico membro do Núcleo de Oncologia Torácica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz gostar quando o paciente vai à rede e aprende um pouco, antes da consulta. “Ele sabe fazer as perguntas já filtradas, não preciso explicar tudo.”

Succi ressalta que é preciso ter cuidado. Mesmo como médico, entrou em pânico no dia que seu filho fez uma ressonância e apareceu um tumor na medula. “Fui direto no Google e a primeira imagem que apareceu foi a de um tumor extremamente maligno. Eu quase infartei. Mas era um tumor benigno que foi operado e curou. A imagem era parecida, mas eu não sou especialista em tumor neurológico.”

Outra fonte de ajuda durante ou após a doença são os grupos de apoio, que podem auxiliar quando não há familiares ou estes não têm entendimento ou não são compreensivos quanto à doença. “Os grupos de apoio são importantíssimos nestes casos”, afirmou Succi.

Para Castanheira, a identificação com outra pessoa ajuda a criar esperança. “No meu caso, a chance de vir a ter uma recidiva nos primeiros dois anos era acima de 60%. Então, quando a gente encontra alguém no grupo que teve o câncer há dez ou 20 anos, tem esperança.”



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