Se você está boquiaberto com a notícia de que cientistas chineses produziram camundongos que têm “duas mães” e “dois pais”, acredite, eu também estou. É um feito biotecnológico impressionante, não há dúvida, mas ele foi realizado não como parte de algum plano malévolo para acabar com a heterossexualidade, mas sim, em grande parte, para tentar entender como funciona o desenvolvimento embrionário dos mamíferos. De modo especial, os resultados dão mais peso à ideia de que há uma Guerra Fria molecular entre os genes do seu pai e os da sua mãe quando você é concebido.

Como expliquei na reportagem linkada acima, tudo começa com o conceito de estampagem genômica ou “imprinting” genômico:

Grosso modo, esse processo pode ser descrito como uma espécie de carimbo molecular que acompanha as cópias de DNA vindas da mãe e do pai quando elas se juntam para dar origem a um embrião. Certos trechos de DNA materno são ativados, enquanto outros, paternos, são desativados, e vice-versa. É como se o carimbo dissesse algo como “cópia do gene paterno; favor desconsiderar e usar apenas a cópia materna”.

O curioso é que existem algumas doenças genéticas raras nas quais há uma bagunça nesse processo. E aí emerge um padrão: se um bebê teve a estampagem genômica materna “apagada”, ele tende a crescer exageradamente; se a estampagem paterna se perder, ele cresce de menos.

Isso começa a fazer muito sentido quando se considera que há um conflito de interesses evolutivo entre os sexos. Pais, é claro, não gestam seus filhos em mamíferos como nós — isso é tarefa das mães. Faz sentido, portanto, que os genes herdados do pai ajudem o bebê a “sugar” o máximo possível de recursos do organismo materno durante a gravidez.

Já a mãe, cujo sucesso reprodutivo talvez dependa da chance de ter outros filhos mais tarde, vai contrabalançar esse impulso tentando tirar alguns recursos do embrião/feto e assim guardar energia para mais tarde. Em situações normais, essas tendências se contrabalançam — mas às vezes o cabo-de-guerra termina em problemas sérios.

Voltando ao estudo divulgado hoje, o dado curioso é que o corpo e os órgãos dos camundongos gerados por dois pais são grandalhões, enquanto os dos gerados por duas fêmeas são menores que a média. Esses experimentos malucos, portanto, dão mais peso à hipótese do conflito genômico entre os sexos.

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