No dia 13 de maio, escrevi aqui sobre o livre arbítrio, se somos nós (ou não) que controlamos nossas decisões. Meu interesse nessa questão veio de um convite para participar numa mesa redonda, onde discutiria o assunto com colegas de áreas diferentes, da neurociência à filosofia. 

Um dos livros que li antes do evento, e que mencionei no texto anterior, foi o de autoria de Sam Harris, onde argumenta, como fazem muitos, que o livre arbítrio não passa de uma ilusão: processos subconscientes ocorrendo no cérebro sem o nosso controle parecem tomar decisões antes que tenhamos consciência delas. 

É como se um piloto automático, localizado nas interações elusivas entre neurônios, estivesse no controle de nossas vidas. 

Ainda mais chocante, vários experimentos parecem concordar com essa conclusão. Na minha apresentação, argumentei que a questão do livre arbítrio é multidimensional, e que não pode ser reduzida a um simples “sim” (o livre arbítrio existe) ou “não” (todas as nossas decisões ocorrem no subconsciente).

As decisões que tomamos no decorrer das nossas vidas, a cor da blusa que vamos vestir numa festa, para onde vamos nas férias, se devemos ou não nos divorciar, incluem um espectro muito amplo, que vai do trivial (café com açúcar ou sem?) ao complexo (qual profissão devo seguir?). 

As escolhas mais difíceis são profundamente diferentes daquelas que são testadas no laboratório. Mesmo que seja óbvio que as decisões que tomamos nunca sejam de fato “livres” —visto que dependem do nosso passado, de onde crescemos, da nossa dinâmica familiar, dos detalhes sociais, genéticos e culturais de nossas vidas— as decisões que envolvem muitas etapas, que necessitam de tempo e ponderação cuidadosa, parecem ser consequência de processos mentais onde temos plena consciência do que está ocorrendo. Caso contrário, acabamos tomando as famosas decisões impulsivas, que, em geral, não dão muito certo.

O que não incluí no artigo do dia 13 de maio foi a questão do determinismo, que é essencial em qualquer discussão sobre o livre arbítrio. É disso que vamos falar hoje. 

Em física, um sistema é determinístico se o seu comportamento futuro (e passado) é determinado pelo seu estado presente. Na prática, esses sistemas físicos são descritos por equações que nos permitem determinar sua evolução no tempo —onde o objeto vai estar em um certo momento do futuro.

Tudo depende, claro, se podemos ou não resolver as equações que descrevem o sistema, algo bem mais fácil em teoria do que na prática. 

A verdade é que a ideia de determinismo é uma aproximação que funciona bem em alguns casos especiais e que falha na maioria dos outros. Por exemplo, se deixarmos uma bola de gude cair de uma certa altura, podemos usar a equação da queda livre de Galileu para calcular quanto tempo demorará até bater no chão. Mas se trocarmos a bola por uma pena, a situação fica bem mais complicada, devido ao maior impacto da resistência do ar no movimento da pena do que no da bola de gude.

A imagem de um mecanismo de relógio é comumente associada ao determinismo. O sucesso da mecânica de Newton, elaborada por vários outros filósofos naturais como Jean-Baptiste d’Alembert, Joseph-Louis Lagrange, e William Hamilton, levou a ideia de uma racionalização total da natureza ao extremo, o cerne do Iluminismo.

Tanto assim que, no início do século 19, o francês Pierre Laplace escreveu uma obra monumental (“Mecânica Celeste”) onde descrevia em detalhes os movimentos de todos os planetas do sistema solar.

Baseado em suas equações e no sucesso do reducionismo, Laplace sugeriu que, se uma supermente conhecesse as posições e velocidades de todas as partículas que compõem o mundo material, das estrelas ao seu cérebro, seria capaz de prever o futuro precisamente. Não só onde Marte ou Júpiter estarão às 13 horas e 21 minutos no dia 13 de maio de 2144, mas quando você nasceria, sua profissão, quantos filhos teria etc. 

Se o Universo fosse assim, tudo seria determinado pelas leis da mecânica: o livre arbítrio não existiria. Seríamos meros autômatos, seguindo uma coreografia pré-determinada. É fácil entender, nessas circunstâncias, porque os românticos se rebelaram contra esse tipo de ultrarracionalização da existência humana!

Felizmente, esse tipo de determinismo é impossível, ao menos dentro do que entendemos hoje. Não podemos saber as posições e as velocidades de todas as partículas que existem. Primeiro, porque essa medida teria que ser instantânea —e como fazer isso, quando estrelas estão separadas por bilhões de anos-luz de distância? (A alternativa seria supor que apenas Deus seria capaz disso, algo que foge ao discurso científico).

E que partículas seriam essas, exatamente? Como reconstruir a realidade física dos quarks e elétrons às pessoas, planetas e galáxias? E as partículas que ainda não conhecemos, e as que nunca poderemos conhecer? 

Ademais, qualquer medida tem uma precisão, e o comportamento de sistemas com interações complexas (dos movimentos do sistema solar às reações bioquímicas numa célula) depende delicadamente dessas medidas.

Como nenhuma medida tem precisão absoluta, podemos apenas prever o comportamento de sistemas complexos dentro de intervalos de tempo bem curtos e, mesmo assim, com incertezas.

Para acabar de vez com o determinismo, adicionamos a isso tudo a física quântica, que impõem um limite absoluto à precisão com que podemos medir simultaneamente a velocidade e posição de uma partícula (o famoso Princípio da Incerteza de Heisenberg). 

A alternativa, para os que insistem numa realidade determinística, é supor que somos cegos ao determinismo que rege o Universo. O mecanismo de relógio existe, mas muito além do alcance de nossos instrumentos e ideias.

Vemos apenas uma pequena parte da realidade e não existe uma cura para essa nossa miopia. Segundo essa crença, a essência da realidade é um mistério inacessível à razão humana. Me parece que esse tipo de determinismo é simplesmente uma outra versão de Deus: omnisciente e inescrutável, cuja existência é impossível de ser confirmada.

O interessante é que, nesse caso, nossa miopia é nossa bênção. É ela que nos permite a ilusão do livre arbítrio. Portanto, mesmo se o Universo for, na sua essência, determinístico, continuamos livres para fazer nossas escolhas.



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