Bifenilpoliclorado. Ou, simplesmente, PCB (do inglês polychlorinated biphenyl). Se durante milhões de anos a orca reinou absoluta no topo da cadeia alimentar, não à toa recebendo o apelido de baleia assassina, um resíduo industrial que já deveria ter sido abolido vem ameaçando a sobrevivência da espécie.

Os PCBs, conhecidos no Brasil pelo nome comercial Ascarel, são uma substância que resulta de uma mistura de hidrocarbonetos derivados do petróleo. Por suas propriedades extremamente convenientes —praticamente não entra em combustão, tem estabilidade térmica e química e é resistentes a bases e a ácidos—, o produto acabou sendo muito utilizado na indústria. Foi bastante empregado em fluidos elétricos, lubrificantes hidráulicos, tintas e adesivos.

O grande problema, entretanto, é o descarte desse material. Os PCBs acabam se acumulando, passando de indivíduo para indivíduo ao longo da cadeia alimentar. Ou seja: quem está no topo, por fim, absorve uma quantidade maior da substância química. A decomposição do produto é extremamente lenta.

Funciona assim: as substâncias descartadas chegam ao ambiente marinho e são primeiro assimiladas pelos fitoplanctos, o primeiro elo da cadeia alimentar. Em seguida, os zooplanctos os ingerem —e levam junto doses de PCBs.

Peixes menores comem zooplanctos, depois são devorados por peixes maiores, outros maiores ainda, até chegarem às orcas —que, por estarem no fim do elo, acabam acumulando todos os PCBs da série.

Em 2004, na Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes firmou-se um compromisso mundial para que o uso dos PCBs fosse abolido, justamente por conta dos danos ambientes. Noventa nações assinaram o termo, comprometendo-se a eliminar gradualmente os grandes estoques ainda existentes da substância.

No Brasil, o Ascarel não é mais utilizado desde 1981, mas ainda existem equipamentos antigos com o produto. Era uma tendência que vinha desde os anos 1970, em diversos países.

Estudo publicado nesta quinta-feira (27) pela revista Science, entretanto, mostra que a despeito dos esforços das últimas quatro décadas em todo o mundo para erradicar a aplicação industrial desse derivado do petróleo, seus efeitos ainda são sentidos pelo ambiente.

Um grupo de cientistas formado por pesquisadores de Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Islândia e Dinamarca revisou a literatura existente sobre o assunto e comparou os dados históricos com resultados de análises atuais. Foram estudadas mais de 350 baleias assassinas, as orcas, em todo o mundo. Trata-se do maior estudo já realizado sobre o animal na história.

De acordo com o especialista em ecossistemas marinhos Jean-Pierre Desforges, pesquisador do Departamento de Biociência e Centro de Pesquisa do Ártico, da Universidade Aarhus, da Dinamarca, os resultados da pesquisa foram surpreendentes. 

O estudo constatou que mais de 50% das populações de orcas de todo o mundo estão severamente afetadas pela substância.

“Os resultados, simulando os efeitos da substância na reprodução e supressão imunológica, revelaram que mais da metade das populações estudadas apresentam alto risco”, afirmou o pesquisador, em entrevista à BBC News Brasil.

“Várias populações de baleias assassinas, particularmente aquelas que se alimentam no mais alto nível trófico, comendo atuns, tubarões e outros mamíferos marinhos, bem como aquelas próximas de regiões altamente industrializadas, estão em risco de colapso”, diz Desforges.

“Os dados são consideráveis, pois incluímos apenas o risco de uma classe de contaminantes, os PCBs, mas sabemos que as orcas estão expostas a centenas de outros produtos químicos e ainda fatores como limitações alimentares e ruído subaquático.”

A pesquisa não só mediu os níveis dos PCBs no organismo desses animais como também, aplicando modelos matemáticos, possibilitou que fossem previstos os efeitos da substância nos descendentes das orcas, em seus sistemas imunológicos e em suas taxas de mortalidade durante os próximos cem anos.

“Sabemos que os PCBs deformam os órgãos reprodutivos de animais como os ursos polares. Diante disso, resolvemos examinar os impactos da substância nas escassas populações de baleias assassinas em todo o mundo”, diz o pesquisador Rune Dietz, também do Departamento de Biociência e Centro de Pesquisa do Ártico, da Universidade Aarhus, da Dinamarca.

Como o estudo recolheu amostras de diferentes regiões do globo —a orca está presente em todos os oceanos, com populações espalhadas de polo a polo— os cientistas ainda mapearam em quais regiões o dano está num estágio maior.

De acordo com a pesquisa, a situação é pior na costa brasileira, no Estreito de Gibraltar, no nordeste do Oceano Pacífico e no entorno do Reino Unido. Nesses pontos, as populações das baleias assassinas foram reduzidas pela metade durante os cerca de 50 anos em que os PCBs foram largamente utilizados, entre as décadas de 1930 e 1980.

Segundo a especialista em mamíferos marinhos Ailsa Hall, pesquisadora da Universidade de St. Andrews, do Reino Unido, nessas regiões raramente são observadas orcas recém-nascidas, um indicativo perigoso de que as populações podem vir a ser extintas.

“Como os efeitos dos PCBs foram reconhecidos há mais de 50 anos, é assustador concluir que há um alto risco de colapso populacional nessa áreas nos próximos 30 ou 40 anos”, observa Desforges. Um exemplar de orca chega a viver 70 anos.

O cenário menos sombrio está nos mares das regiões das Ilhas Faroe, Islândia, Noruega e Alasca, bem como no entorno do continente antártico. Nesses locais, os efeitos da substância são menos presentes e as populações seguem crescendo.

Conforme aponta Desforges, a solução para esse problema ambiental passa por uma postura “complexa e multifacetada”. Depois que os PCBs foram apontados como um problema global, esforços foram feitos para abolir seu uso em todo o mundo. “Os níveis caíram desde os picos nos anos 1970 e 1980”, concorda o cientista.

No entanto, dados indicam que a substância ainda é utilizada —ou descartada de modo inadequado. “Relatórios recentes revelam que, com as taxas atuais de descarte, poucos países conseguirão atender aos requisitos firmados na Convenção de Estocolmo, pelo menos até 2025”, comenta Desforges. “O cumprimento mais rigoroso do que foi assinado ali seria um bom primeiro passo para evitar mais contaminação ambiental.”

O cientista também acredita que novas atitudes precisam ser tomadas, principalmente em fontes menos controladas de PCBs. “Por exemplo, tintas e selantes. Não são bem regulados e provavelmente seguem sendo uma importante contribuição para o estoque global restante da substância”, acredita.

Apesar de conhecidas como baleias assassinas, as orcas não são baleias. O gigantesco animal, considerado um superpredador versátil e cujo nome científico é Orcinus orca, é, na realidade, integrante da família dos golfinhos —uma das 35 espécies identificadas de golfinhos no planeta.

Em termos de distribuição geográfica, o mamífero só perde para o homem. Está presente em todos os oceanos. Estudos paleontológicos fazem crer que o animal existe há 5 milhões de anos.

A espécie foi descrita cientificamente pela primeira vez pelo zoólogo e botânico sueco Carl Nilsson Linnaeus (1707-1778), o Lineu, considerado o pai da taxonomia moderna. Mas a primeira menção ao animal data de muito antes. O naturalista Caio Plínio Segundo (23-79), conhecido como Plínio, o Velho, na Roma Antiga já citava o gigantesco bicho em sua obra História Natural, escrita por volta do ano 77 d.C. Para ele, se tratava de um “monstro marinho feroz”.

Exemplares podem chegar a 10 metros de comprimento e pesar até 10 toneladas.



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