Companhias da costa oeste dos Estados Unidos estão tomando Nova York de assalto, mudando a cara de bairros da cidade e alterando sua identidade. De polo das finanças, moda e mídia, ela vem se tornando cada vez mais um centro de tecnologia.

O Google anunciou na segunda-feira (17) que planeja construir um campus de US$ 1 bilhão logo ao sul do West Village. A incursão da empresa de internet em um dos bairros mais famosos de Manhattan a posiciona para se tornar um dos maiores ocupantes de espaço de escritórios na cidade, e permitirá que dobre os seus quadros na área, para mais de 14 mil pessoas nos próximos 10 anos.

O anúncio do Google surge depois que a Amazon decidiu, no mês passado, construir uma nova sede em Queens que abrigará até 25 mil trabalhadores; Facebook, LinkedIn e Uber também anunciaram expansões de suas instalações em Nova York, recentemente —em boa parte motivados pela caça por talentos.

Cada uma dessas empresas criará centenas ou milhares de empregos bem remunerados e alugará centenas de milhares de metros quadrados de imóveis comerciais.

“A advocacia, a medicina e as finanças foram suplantados pela tecnologia da informação”, disse Mitchell Moss, professor de planejamento urbano na Universidade de Nova York que pesquisa sobre a economia da cidade.

O espaço selecionado para o novo campus do Google, em Hudson Square, antes um distrito industrial logo ao sul do West Village, reforça a presença da empresa no West Side de Manhattan e acelera as mudanças na região. Isso espelharia a maneira pela qual o Google transformou o distrito de Chelsea, em Manhattan, onde opera um escritório desde 2006.

A empresa adquiriu o Chelsea Market por US$ 2,4 bilhões alguns meses atrás e um edifício adjacente em 2010, e aluga outros escritórios na área, a cerca de 20 minutos a pé de seu novo campus.

A peça central do campus de 158 mil metros quadrados será o edifício St. John’s Terminal, perto do Holland Tunnel, em Washington Street, e o Google também pretende ocupar espaços em dois edifícios próximos em Hudson Street. No total, a empresa expandirá sua presença em Manhattan em cerca de 30%, e ocupará 627 mil metros quadrados.

“A cidade de Nova York continua a ser uma excelente fonte de talentos diversificados e de classe mundial”, afirmou Ruth Porat, vice-presidente de finanças do Google, em comunicado na segunda-feira. “Foi o que trouxe o Google à cidade em 2000 e é o que nos mantém aqui”.

A transformação de Nova York em um polo de tecnologia começou depois da crise de 2008, quando o prefeito Michael Bloomberg decidiu se concentrar no setor como propulsor de futuro crescimento.

O governo dele buscou melhorar a capacitação tecnológica da força de trabalho local, uma campanha que levou a Universidade Cornell e seu parceiro, o Technion (Instituto de Tecnologia de Israel), a construir um campus de ciência aplicada e engenharia na ilha Roosevelt. Iniciativas tecnológicas —novos cursos, edifícios e institutos de pesquisa — também foram promovidas pela Universidade Columbia, Universidade de Nova York e Universidade Municipal de Nova York.

O Google chegou a Nova York quando abriu um escritório de vendas de publicidade em 2000. Adicionou uma equipe de engenharia à sua força de trabalho na cidade em 2003, e vem expandindo constantemente sua presença desde então.

Outras das grandes empresas de tecnologia não demoraram a seguir seus passos. Amazon e Facebook têm, cada qual, mais de dois mil empregados em Nova York, e a Apple e a Salesforce têm mais de mil trabalhadores cada.

O LinkedIn tem um grande escritório no Empire Estate Building, e a IBM escolheu Nova York para sediar sua divisão Watson de inteligência artificial e sua divisão de computação em nuvem.

Desde 2009, o total de empregos em tecnologia e publicidade cresceu em 31% em Nova York, para 360,6 mil postos de trabalho, enquanto o número de empregos nos serviços financeiros subia em 12%, para 475,5 mil postos de trabalho, no mesmo período, de acordo com uma análise de dados federais conduzida por Ken McCarthy, principal economista da imobiliária Cushman & Wakefield.

 

Em contraste, os setores de saúde e educação empregam cerca de um milhão de pessoas em Nova York, e o setor de hospedagem emprega 465,8 mil trabalhadores, segundo a análise dele.

McCarthy diz que os dados federais classificam empregos com base no empregador, o que significa que qualquer pessoa que trabalhe para um banco será enquadrada como empregada pelo setor financeiro.

Mas as atividades tradicionais da economia de Nova York —finanças, varejo e consultoria – também criaram milhares de empregos tecnológicos.

Os bancos JPMorgan Chase, Goldman Sachs e Citigroup empregam milhares de profissionais de tecnologia, entre os quais muitos em campos novos como ciência de dados, blockchain e aprendizado por máquina.

A expansão do Google em Manhattan contrasta com a da Amazon em Long Island City, onde o plano da empresa para se instalar naquela região antes industrial de Queens causou intenso debate local.

Os executivos da Amazon, que prometeu pouco em termos de benefícios para o bairro em troca dos US$ 3 bilhões em incentivos estaduais e municipais que a empresa vai receber, enfrentaram protestos e um interrogatório áspero em uma audiência no legislativo municipal de Nova York, uma semana atrás.

O Google se expandiu discretamente e não pediu subsídios públicos. “Estamos crescendo firmemente há 18 anos sem alardear muito, ou pedir apoio do governo”, disse William Floyd, vice-presidente de assuntos externos do Google em Nova York, este mês. “Crescemos por conta de nosso trabalho árduo”.

Mas o Google também enfrentou críticas em Nova York. Os proprietários de alguns restaurantes em Chelsea se queixaram da perda de possíveis clientes, porque a empresa serve refeições gratuitas em seus escritórios. (As autoridades de San Francisco debateram proibir a criação de refeitórios que forneçam alimentação grátis pelas empresas da cidade por esse motivo.)

E há pessoas em Manhattan que se preocupam com a possível expansão do Google e outras empresas por bairros históricos.

“Minha preocupação é que a concentração do Google naquela área cause pressão ainda mais intensa por desenvolvimento de escritórios, especialmente para o setor de tecnologia, em bairros adjacentes como o Village e o East Village, onde já estamos vendo isso acontecer”, disse Andrew Berman, diretor executivo da Sociedade pela Preservação Histórica de Greenwich Village.

Berman disse que não se opunha à expansão do Google em Hudson Square, que ao longo da última década vem se transformando em distrito comercial, com muitos lofts e fábricas convertidos em escritórios que abrigam mais de mil empresas, muitas das quais de tecnologia, publicidade e mídia.

Hoje, mais de 50 mil pessoas trabalham no bairro e milhares de outras o escolheram como moradia depois de uma uma mudança de zoneamento, em 2013, que permitiu projetos residenciais na área.

Mas Berman disse que a demanda crescente por escritórios resultou na demolição de edifícios históricos, expulsou antigos inquilinos comerciais e moradores, e resultou em torres modernas de escritórios que não combinam com as demais edificações desses bairros.

Tradução de Paulo Migliacci



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