Uma nova tradução para o português do livro “A Origem das Espécies”, clássico do naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) que lançou as bases da teoria da evolução e da biologia moderna, busca apresentar aos leitores brasileiros a primeira edição da obra, cujo impacto inicial fez o público do século 19 repensar o relacionamento entre os seres humanos e as demais formas de vida na Terra.

Em geral, as versões publicadas no Brasil optam por trazer a sexta edição do livro, que inclui modificações importantes em relação ao texto original de Darwin, muitas das quais feitas para rebater críticas ao trabalho. Embora o texto tenha saído pela primeira vez em 1859, as últimas mudanças feitas nele datam de 1872.

“Não creio que uma edição seja ‘melhor’ do que outra, mas o fato é que a primeira tem o pensamento do autor livre de influências das consequências de seu lançamento”, explica o biólogo Nélio Bizzo, especialista em ensino e história da ciência da Faculdade de Educação da USP. Bizzo foi responsável pelo prefácio, pela revisão técnica e pelas notas da nova tradução.

A mais famosa das mudanças introduzidas nas edições subsequentes foi motivada pelas controvérsias teológicas que cercaram a publicação do livro.

Ao defender a ideia de que todos os seres vivos atuais teriam surgido a partir de “uma ou poucas” espécies originais, por meio de um processo de descendência com modificação regido principalmente pela seleção dos organismos mais aptos, Darwin lançou um bem-sucedido desafio a um dos principais argumentos da chamada teologia natural.

Os teólogos naturais usavam a grande complexidade e aparente perfeição dos detalhes dos seres vivos, como a sofisticação do olho humano, como prova de que uma inteligência sobrenatural, identificada com o Deus judaico-cristão, teria sido diretamente responsável por projetá-los, criando as espécies separadamente, com as características que ainda têm.

Para encontrar uma explicação científica, e não teológica, para a complexidade de animais e plantas, Darwin formulou o conceito de seleção natural. Segundo ele, a variabilidade de características entre os organismos de uma espécie, ligada a fatores hereditários, é “peneirada” pelas exigências do ambiente.

Só as características que favorecem a sobrevivência e a reprodução são passadas para as futuras gerações e se tornam cada vez mais comuns. 

Com o passar de milhões de anos, pequenas mudanças graduais levariam à formação de adaptações cada vez mais complexas — no caso do olho, há uma série de semelhanças bioquímicas entre tecidos mais simples que detectam a luz em invertebrados e órgãos complicados como os nossos. 

Darwin, porém, nunca foi grande fã de encrencas, nem queria que sua obra virasse um panfleto pró-ateísmo. Por isso, a partir da segunda edição, incluiu a expressão “pelo Criador” no capítulo final do livro, num ponto em que falava da origem da vida. 

A frase continuou desse jeito nas edições seguintes. Ele também fez questão de frisar que se correspondera com amigos cristãos (ele próprio era agnóstico) para os quais a evolução era compatível com a fé religiosa.

A seleção natural foi o grande “gol” do clássico, seguida pela ideia de seleção sexual, segundo a qual as diferenças entre os sexos de várias espécies surgiram graças à competição por parceiros ao longo das gerações (veja infográfico). Mas também há uma ou outra bola fora importante.

As aulas de ciência nos ensinos fundamental e médio, por exemplo, costumam destacar diferenças entre as ideias de Darwin e as do francês Lamarck, naturalista do século 18. 

​Lamarck é popularmente conhecido como defensor da transmissão hereditária do uso e do desuso (girafas teriam ficado pescoçudas porque, ao longo das gerações, esticavam seus pescoços para alcançar folhas altas, por exemplo não que Lamarck tenha usado esse caso para ilustrar a hipótese). Na verdade, Darwin aceitava o uso e desuso, embora defendesse que seu efeito era secundário em relação ao da seleção natural.

“A oposição que se construiu entre Darwin e Lamarck não tinha fundamento nos escritos deles”, resume Bizzo. “A preciosidade dessa primeira edição não está na literalidade de cada palavra, mas sim na maneira original como Darwin articula fatos bem conhecidos à época e lhes dá uma interpretação totalmente nova.”

De maneira geral, a tradução feita por Daniel Moreira Miranda reflete bastante bem o estilo de Darwin, que lembra um pouco o dos grandes romancistas vitorianos e faz questão de se dirigir ao leitor não especialista com a maior clareza possível.

O único senão está na frase final do livro. Na primeira edição em inglês, por incrível que pareça, Darwin não usa a palavra “evolução”, apenas o verbo “evoluíram”, que aparece na conclusão da obra. Optou-se, porém, pela expressão “mantenham sempre em marcha sua evolução” no último parágrafo. Em inglês, o termo só apareceria na sexta edição, enquanto outra expressão-chave, “sobrevivência dos mais aptos”, só foi incorporada ao texto na quinta edição.

A ORIGEM DAS ESPÉCIES
AUTOR Charles Darwin; tradução de Daniel Moreira Miranda
EDITORA Edipro
QUANTO R$ 77,90 (480 págs.)



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