Pode parecer absurdo que um livro de 600 páginas seja considerado um mero resumo, mas é exatamente assim que o naturalista britânico Charles Robert Darwin (1809-1882) classificava sua obra mais célebre, “A Origem das Espécies”.

Como mostra uma nova edição brasileira do livro, que recupera os detalhes do contexto histórico do século 19 no qual a teoria da evolução emergiu, Darwin queria publicar um tomo muito mais volumoso, mas acabou decidindo divulgar uma versão relativamente enxuta de suas ideias por um motivo que os cientistas atuais conhecem bem: a pressão da concorrência.

De fato, Darwin foi o primeiro a formular de forma coerente o princípio da seleção natural como a força motriz da complexidade e diversificação dos seres vivos, mas levou décadas para refinar a ideia, discutindo suas teses apenas com um ou outro colega.

Em junho de 1858, porém, chegou às mãos dele uma carta enviada da atual Indonésia pelo também naturalista Alfred Russel Wallace (1823-1913). A missiva continha o rascunho de um artigo científico detalhando, em linhas gerais, a mesma visão que Darwin esposava.

Pego de surpresa, e aconselhado pelos aliados Sir Charles Lyell e Joseph Hooker, Darwin concordou em submeter, no mês seguinte, alguns de seus textos para leitura na reunião da Sociedade Lineana de Londres, junto com o artigo de Wallace.

A nova versão brasileira do livro conterá justamente a íntegra de todos os textos originalmente apresentados nesse encontro em Londres. “Publicá-los juntos pareceu muito importante, porque eles esclarecem a gênese da ideia central do livro”, explica o filósofo Pedro Paulo Pimenta, da USP. Pimenta, além de tradutor do livro, é responsável pela organização e apresentação da obra.

Embora “A Origem das Espécies” propriamente dita seja, é claro, o cerne do novo volume —trazendo o texto correspondente à primeira edição inglesa, considerada a mais representativa da originalidade do pensamento de Darwin—, Pimenta traduziu outros “extras” que ajudam a entender o impacto original do livro.


OS ACERTOS DE DARWIN:

A ideia de que certas características dos seres vivos os ajudam a sobreviver e se reproduzir e são passadas com mais frequência às gerações seguintes ainda é o centro da biologia moderna

A genômica atual, bem como uma série de outras evidências, indicam uma semelhança essencial no funcionamento molecular de todos os seres vivos, que aponta para uma origem comum e única da vida na Terra. Como escreveu Darwin, “todos os animais e plantas são descendentes de um protótipo” 

Observando características peculiares de machos e fêmeas em diversas espécies, Darwin concluiu que a competição por parceiros levou ao desenvolvimento desses traços, como a cauda dos pavões ou as galhadas dos veados

Analisando a distribuição de espécies em ilhas oceânicas e outros habitats, o naturalista argumentava que a diversidade atual de seres vivos é resultado da migração e diversificação de espécies vindas de outros lugares, e não da criação separada desses animais e plantas em cada local 

  • Impacto sobre outras áreas do conhecimento

Economia, ciência da computação e até estudos literários hoje são influenciados pelas ideias darwinianas, algo que o naturalista já previa: “Vejo, no futuro distante, a abertura de campos de pesquisa muito mais importantes. A psicologia terá uma nova fundação. Luz será lançada sobre a origem do homem e sua história” 


Os mais interessantes talvez sejam três resenhas “quentes” do livro, escritas em 1860 por três figuras influentes, em ambos os lados do Atlântico. Um deles é o célebre “buldogue de Darwin”, Thomas Henry Huxley, um anatomista comparativo britânico que, como o epíteto deixa claro, foi um dos defensores de primeira hora do naturalista e enfrentou o bispo anglicano de Oxford, Samuel Wilberforce, num debate sobre a evolução e o parentesco do homem com os demais primatas.

Enquanto Huxley era anticlerical e cunhou o termo “agnóstico” para descrever sua própria posição a respeito da crença em Deus, um presbiteriano devoto dos EUA é o autor da outra resenha elogiosa da obra de Darwin incluída no volume.

Asa Gray, botânico da Universidade Harvard, faz questão de apontar, em seu texto, que os argumentos de Darwin poderiam ser compatibilizados com a ideia de um Deus que atua no mundo por meio de leis naturais.

Finalmente, há a análise do paleontólogo Sir Richard Owen, que critica duramente a ideia de seleção natural e se diz desapontado com o resultado do trabalho de Darwin.


AS MANCADAS DE DARWIN:

O naturalista achava que características adquiridas pelos seres vivos durante sua vida podiam ser passadas a seus descendentes, ideia normalmente associada a seu antecessor, Lamarck (1744-1829). Ancestrais das girafas, por exemplo, teriam ficado de pescoço mais comprido esticando-o em busca de folhas mais altas. Na maioria das vezes, a ideia é incorreta

  • Perfeição da evolução

“Como seleção natural funciona unicamente pelo e para o bem de cada uma das formas de vida, todos os dotes corporais e mentais tendem a progredir em direção à perfeição”, escreveu Darwin. Errado: como os recursos da natureza são sempre finitos, os seres vivos precisam equilibrar diferentes necessidades, com soluções imperfeitas  


“Essas resenhas mostram que as controvérsias em torno do livro se deram principalmente no meio científico, em torno de problemas teóricos, incluindo a ordenação da Natureza por uma sabedoria divina”, resume Pimenta. “A questão religiosa, esse embate entre evolucionismo e criacionismo, é mais recente, é uma marca da nossa época, eu diria.”

O tradutor, cuja especialidade acadêmica é o estudo de filósofos do Iluminismo do século 18, e de como as bases lançadas por eles contribuíram para o arcabouço da ciência moderna, diz que enxerga em Darwin a influência de duas grandes correntes iluministas.

A primeira é a economia política escocesa, que tendia a enxergar mecanismos de equilíbrio espontâneo na natureza, no lugar do que os filósofos chamam de “ordem teleológica” (ou seja, criada “de cima para baixo”, com vistas a um objetivo definido, como na visão tradicional sobre a origem dos seres vivos como algo determinado diretamente pela ação de Deus).

A visão darwinista subverte a ordem teleológica ao imaginar que, a partir de um ancestral comum, a competição pela sobrevivência e pela reprodução entre os seres vivos, com algumas formas ancestrais conseguindo deixar mais descendentes que outras, é que teria levado à diversificação das espécies e à formação de ecossistemas complexos —um processo, portanto, “de baixo para cima”.

Para Pimenta, a segunda corrente do Iluminismo a influenciar o pesquisador é a história natural francesa, às voltas com a questão da unidade dos seres vivos em meio à sua variedade. Com efeito, Darwin faz questão de assinar sua dívida com cientistas franceses do fim do século 18 e começo do século 19, como Jean-Baptiste Lamarck e Étienne Geoffroy Saint-Hilaire, no “Esboço histórico” sobre os predecessores das ideias evolucionistas, que ele incluiu na terceira edição de seu livro.

Aliás, embora parte das teses de Lamarck hoje sejam ridicularizadas —como a de que as girafas ganharam seus pescoços longos fazendo esforço para alcançar folhas altas ao longo de gerações—, Darwin também acreditava em processos parecidos, embora defendesse a preponderância da seleção natural.

Seja como for, apesar de muitos aspectos do livro estarem datados, a força do conjunto da obra ainda é inegável, afirma Pimenta. “Darwin não apenas teve uma ideia luminosa e original, corroborada empiricamente e desenvolvida com todo rigor, como soube exprimi-la em um livro perturbador, que continua a ser desconcertante e não perdeu sua força até hoje. É um clássico da ciência, mas também das letras do século 19.”



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