Ariane Cor é uma das três idealizadoras do Minas Programam, um projeto que oferece cursos e aulas de programação para meninas negras da periferia. Junto com as amigas Bárbara Paes e Fernanda Balbino, ela ajuda a criar novas oportunidades e mostrar caminhos diferentes para suas alunas. O mercado de trabalho não é o foco, mas a tranformação na vida das alunas pelo conhecimento adquirido.


Inspirada por Malala Yousafzai, vencedora do prêmio no Nobel por defender o direito da mulheres terem acesso à educação, e pelo Manisfesto Ciborgue, de Donna Haraway, ensina que computador e tecnologia também é coisa de menina


Em entrevista ao R7, Ariane conta sobre as motivações para ensinar, a trajetória do projeto e as situações que passou em um ambiente de trabalho predominantemente masculino.


Como foi o seu primeiro contato com programação?


Eu sou designer de formação e também fiz colégio técnico em design gráfico. Enquanto ainda estudava, eu trabalhava em estúdio. Comecei como ilustradora e depois fui aprendendo a mexer com internet. No início, criava gifs no Photoshop e a fazia sites em flash, que era moda na época.


Eu fazia toda a parte de designer e direção de arte, mas sempre tinha que contratar uma pessoa para fazer a programação e sempre era um homem. Foi daí que eu resolvi aprender e também fazer essa parte do trabalho. Muita coisa descobri como fazer sozinha ou assistindo tutoriais no YouTube. Quando eu comecei a fazer essa parte do trabalho, consegui triplicar minha renda. A parte de quem faz a programação é a mais cara do orçamento.


Você tinha outras amigas que tinham interesse em tecnologia no começou?


No começo só conhecia homens nessa área. No meu primeiro estágio eu era a única mulher da equipe. Em um outro emprego, eu cheguei a trabalhar com 30 caras. A pessoa que era a gerente de TI também nunca era uma mulher. Até quatro anos atrás, os desenvolvedores eram sempre homens. Depois de me envolver no feminista e trabalhar com o “Minas Programam” eu só contrato mulheres.


Como era o a relação com os homens que trabalhavam com você?


Antes eu trabalhava bastante com equipes exclusivamente masculinas. Eu não sei se é um mal dos desenvolvedores, mas eles tinham muita dificuldade de me passar informações. Quando eu era diretora de arte, os responsáveis pela programação simplesmente falavam que não dava e pronto. Eles tinham o conhecimento e mesmo assim dificultavam o trabalho. Eu acabava ficado só com a parte estética do projeto e não conseguia participar da programação. Até por isso, ganhava menos do que eles.


Eu sinto que no mercado as mulheres têm uma abordagem diferente. Nas reuniões a postura do cliente é diferente e a percepção das propostas também. 


O domínio dos homens na área de tecnologia tem diminuído?


Há uma mudança de cultura, mas a lacuna é muito grande. Desde os anos 70 as mulheres estão distantes da tecnologia, mas as cabeças estão mudando. As empresas já estão percebendo que se posicionarem a favor da diversidade e da equiparação dos salários é importante. Eu percebo que há mais disposição pela diversidade. Agora existem vagas exclusivas para as mulheres ou para mulheres negras. Isso não existia.


Você já passou por situações de preconceito?


SIm! Uma vez, em uma entrevista de emprego, me perguntaram se meu marido ia deixar eu trabalhar, por exemplo. Só porque era um trabalho que seria intenso e duraria três meses. Depois questionaram se eu pretendia engravidar naquele período.


Apesar dessas perguntas na entrevista, saí de lá com a vaga na mão. Voltei para a minha casa praticamente empregada. Faltava só uma ligação para confirmar. Passaram dias até que resolvi ligar para a empresa. Na véspera do dia que eu começaria, liguei na empresa e disseram que assim que eu saí um rapaz foi entrevistado e eles mudaram de ideia. Decidiram contratar o cara. Às vezes você não quer acreditar que essas coisas acontecem só porque você é mulher. É difícil ficar com isso na cabeça.


Tem outras situações complicadas. É comum também deixarem as mulheres com as partes bonitinhas dos trabalho e não deixarem a gente desenvolver. Eu sei programar, mas me deixavam só na parte estética. Até mesmo no momento de promover uma funcionária isso é um problema. Elas vão para cargos que não estão ligadas com a programação. Continuam em tecnologia, mas em áreas de gestão.


Também tem o bullying de chefes e outros colegas de trabalho. Se você perde o controle e responde a uma brincadeira, isso é visto como um comportamento típico das mulheres. Você não pode chorar ou levantar a voz.


E como surgiu a ideia do “Minas Programam”?


Eu trabalhava em na ONG e a gente já fazia algumas oficinas sobre tecnologia. A Bárbara participou em uma dessas oficinas e nós começamos a conversar sobre as dificuldades das mulheres nesse meio de programação. Então começamos a estruturar o projeto.
As aulas surgiram com a ideia de as garotas experimentarem atividade diferentes e começarem a programar.


Isso foi em 2015 na ONG Casa de Lua. Foi tudo no braço e acabou dando muito certo. Na primeira oficina já tivemos 30 alunas. Aplicamos o projeto para o Frida, um edital internacional, e conseguimos ter o contato com outras iniciativas no México, no Uruguai e também na Malásia. Também tivemos outros suportes e conseguimos fazer outras edições do nosso curso. Agora estamos organizando o de 2018.





Como funciona?


Nossas aulas dão preferência para as mulheres negras da periferia. Nós procuramos não ficar só na região central da cidade, porque fica muito longe daquelas alunas que moram em bairro mais distantes. Quem não puderem pagar pelo deslocamento, recebem uma ajuda de custo para participar.


O foco do “Minas Programam” não é o mercado de trabalho. A ideia é fazer a capacitação técnica das meninas que têm interesse em tecnologia. Não necessariamente para se candidata a uma vaga. Nosso foco é melhorar a vida das mulheres.


Todas as professoras são pagas  para dar aulas. Nós lutamos por reconhecimento e melhores salário não podemos trabalhar com o trabalho voluntário de profisssionais. 





Qual foi o resultado mais legal do projeto?


São muitos resultados legais, mas um que é lembro aconteceu a partir da parceria que fizemos com a PretaLab, para ensinar a montar páginas na internet em WordPress. A Natália Grilo é idealizadora do AYÓ Encontro Negro de Contação de Histórias e participou desse curso. A partir das aulas, ela conseguiu fazer o site sozinha e fez uma campanha de crowdfunding para viabilizar o projeto. Agora, ela também ensina crianças a montar sites, mesmo sendo historiadora e não trabalhando diretamente com tecnologia.


Existem outras iniciativas semelhantes?


A Bárbara fez uma série de entrevistas com programadoras negras, o #NegrasemTI. Foi um espaço que nós demos elas contarem e divulgarem suas histórias. Essa foi uma formar de mostrar que essas mulheres existem, mas não têm espaço e acabam não aparecedo.
É legal ver que existem outras mulheres na área. Quando a gente pergunta o que as alunas querem ser, todas querem ser professoras, advogadas, mas não pensam em trabalhar com tecnologia. Elas não sabem que dá para trabalhar com mídias sociais


Quem são as mulheres que te inspiram?


Quem mais me inspira são as nossas alunas adolescentes. Eu vejo elas passando pelos mesmo problemas que eu passei. Elas chegam tímidas e depois das atividades você percebe como elas são de verdade. Elas são politizadas, inteligentes e têm ótimas ideias. O foco do “Minas Programam” é a transformação pelo conhecimento. Para que essas garotas tenham espaço.


Minhas inspirações sempre foram as mulheres da política. Eu gosto muito do Manifesto Ciborgue, da Donna Haraway. Ela fala que a tecnologia de informação é predominantemente masculina e branca. Quando as mulheres se apropriam da tecnologia elas podem produzir suas próprias histórias. Eu não quero criar peças de uma máquina eu quero dar ferramentas paras as meninas terem seu espaço. A Malala, ganhadora do Nobel da Paz em 2014, é uma delas também. Ela criou um blog sozinha para denunciar a situação das outras meninas que viviam situações como a dela e não podiam estudar.



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