Houve um tempo em que entrar numa loja, retirar um produto da prateleira, colocar na bolsa e sair pela porta da frente era furto, crime passível de sanção ou prisão em qualquer lugar do mundo.

Desde janeiro deste ano, no entanto, um novo tipo de loja abriu as portas em que essa prática é normal e esperada.

Ali não há caixas nem equipe de seguranças, e é impossível pagar sua compra em dinheiro. Ninguém vai lhe fazer a clássica pergunta: “Débito ou crédito?”.

Para isso, dois fatores são cruciais: o controle das pessoas ocorre na entrada, e não na saída, e tudo aquilo que o consumidor escolher e carregar consigo para fora da loja, passando por uma catraca, será devidamente cobrado em seu cartão de crédito.

Com essa tecnologia, a Amazon Go, projeto da gigante do ecommerce global para lojas físicas, promete revolucionar o jeito de se fazer compras, além de eliminar alguns postos de trabalho de era pré-digital.

Depois dos cobradores de ônibus e dos motoristas de táxi, entre tantos outros, teria chegado a vez de as caixas de supermercado procurarem outra coisa para fazer.

Na semana passada, a Amazon Go abriu sua primeira unidade fora de Seattle, cidade-sede do império de Jeff Bezos.

A escolhida foi Chicago, e a reportagem da Folha foi conferir a novidade, tratada como parque de diversões pelos trabalhadores que circulam pelo centro comercial da cidade.

No hall de entrada, funcionários ajudam os novatos a baixarem o aplicativo específico da loja. Seu 4G está lento? Tem uma rede wi-fi aberta disponível, claro. Não se pode perder um novo cliente por uma bobagem dessas.

O aplicativo abre uma tela com um QR code, aqueles códigos de barra quadrados, que você escaneia nas catracas que ficam na entrada da loja e pronto: é comprar e vazar.

Parece uma loja de conveniência normal, mas, ao reparar bem no teto, é possível ver centenas de quadrados pretos, que parecem pequenas caixas de som.

São câmeras-sensores que monitoram os movimentos de todos os que se registraram na entrada.

Cada produto que você retira da prateleira vai parar no seu carrinho virtual. E, se você o devolve na prateleira, ele é retirado do seu carrinho.

Na tentativa vã de testar e confundir o sistema, a reportagem devolveu vários sanduíches diferentes, aleatoriamente. Nada feito. O sistema funcionou.

A estranheza que causa o ato de sair da loja com um sanduíche nas mãos sem dar satisfação para ninguém acaba alguns passos depois da catraca de saída.

Seu celular apita e lhe informa: você foi devidamente cobrado por tudo o que levou.

Se houver exagero, o comprador afobado terá de dar satisfações apenas paras as suas próprias finanças.

As próximas unidades da Amazon Go devem abrir em Nova York e San Francisco, na Califórnia.

Os planos da empresa seriam de abrir 3.000 lojas do tipo até 2021. O Brasil, por ora, não estaria nesses planos.

A Amazon ficou um ano pesquisando uma tecnologia que permitisse a sua loja sustentar o slogan “just walk out” (algo como “simplesmente vá embora”).

Outras lojas já criaram esquemas de autoatendimento ou mesmo de aplicativos que permitem ao consumidor escanear o código dos produtos que escolhe, acertando a conta virtualmente.

O esforço foi o de tornar a operação de compra praticamente invisível, o que pode gerar descontrole nos gastos, como sugerem alguns estudos.

Desde 2001, quando professores de marketing do MIT (Massachusetts Institute of Technology) publicaram uma pesquisa sobre o tema, sabe-se que o processo que torna os gastos imateriais e invisíveis tende a gerar exageros.

O experimento do MIT recebeu o sugestivo título de “Always Leave Home Without it: A Further Investigation of the Credit-Card Effect on the Willingness to Pay” (“Sempre deixe em casa: uma investigação sobre o efeito do cartão de crédito na disposição em pagar”).

O grupo que usava cartão para pagar por um ingresso de um jogo se mostrava disposto a pagar muito mais que o grupo que usava dinheiro.

A ideia é simples. Quando paga em dinheiro, o consumidor tem de fazer contas o tempo todo para saber se o orçamento é do tamanho do seu desejo.

Nestas operações, faz escolhas mais conscientes, baseado em princípios de urgência ou de agrados.

Na hora de pagar uma compra com cartão de crédito, esses cálculos desaparecem.

O tempo de espera na fila do caixa ou do autoatendimento, no entanto, permite alguma reflexão sobre o que está na cesta ou no carrinho, o que tende a afastar as compras por impulso.

O mecanismo já não funciona em compras online de poucos cliques. Num sistema como o da Amazon Go é de se esperar que esses freios simplesmente não ocorram.

O programador de Chicago Kurt Smith, 32, em sua primeira visita à Amazon Go local, diz que é muito cedo para avaliar essa consequência das lojas sem caixas.

 



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