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Notas musicais, sem estarem organizadas numa partitura, podem não resultar em boa música. Aparentemente, o mesmo vale para o funcionamento do nosso organismo: genes (as notas, mas químicas) e marcas epigenéticas se unem e guiam essa sinfonia. E já tem gente tentando usar essa “música” para tratar doenças.

Caso o leitor não seja tão íntimo da epigenética, ela estuda as mudanças que acontecem sobre o DNA, mas que não alteram as ‘letras químicas dele’. De forma geral, marcas epigenéticas poderiam, segundo pesquisadores, funcionar como um botão “liga/desliga” de genes.

“Essas áreas epigenéticas vão permitir entender o desenvolvimento das células. Isso vai permitir que a gente entenda também mecanismos até agora desconhecidos de doenças”, diz Paulo de Oliveira, bioinformata do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

Segundo Lygia Pereira, pesquisadora do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias, da USP, a maior parte da aplicação da pesquisa com epigenética está na área de câncer.

“A promessa da epigenética é termos controle sobre nossos genes e modular a expressão deles para nos beneficiar”, diz Pereira. A pesquisadora afirma que uma das coisas que empolgam a comunidade científica é a possibilidade de modificações reversíveis, ao contrário dos casos de mutações no DNA.

Editoria de Arte/Folhapress

É com essa ideia que o médico Luiz Fernando Lopes trabalha no Hospital de Câncer de Barretos. “Em 1989 eu identifiquei uma criança com uma doença que não era descrita em crianças, a mielodisplasia -apelidada de pré-leucemia.”

Lopes diz que casos semelhantes acabaram evoluindo para leucemias. A partir daí, no início dos anos 2000, decidiu estudar possíveis alterações epigenéticas envolvidas com a doença.

Descobriu a hipermetilação de genes associada ao quadro e uma droga esquecida -que era usada contra leucemia mas foi deixada de lado após a chegada de novos medicamentos- com efeito contrário, de reduzir a metilação.

A metilação é a associação de grupos metil (CH3-), a determinadas áreas do DNA. Essa é um das marcas epigenéticas mais estudadas.

“A droga não cura, mas não deixa a doença progredir para haja tempo de achar um doador de medula”, afirma Lopes, que diz também que não são todos os casos de mielodisplasia que respondem a ela.

Segundo Lopes, antes a chance de cura era de cerca de 10% e hoje chega a 60%.

“O tempo ainda é curto para saber se estão curadas, não sei se em alguma delas a doença vai voltar”, diz Lopes. “Ano passado, para levantar os dados dos pacientes, descobri que a primeira criança que eu tratei está viva. Liguei no dia seguinte ao aniversário de 36 anos dela. Ela tem uma filhinha e é enfermeira.”

Patrícia Ishida, 37, a paciente zero de Lopes, sonha em trabalhar com oncopediatria.

“Para o bem ou para o mal, eu fui uma pioneira”, brinca Patrícia. “Fico feliz de ter contribuído de alguma forma.”

Anamaria Camargo, coordenadora do centro de oncologia do Hospital Sírio-Libanês, pesquisa no tema. Ela e sua equipe tentam mapear alterações em padrões de metilação de células tumorais.

Já Oliveira, do CNPEM, tenta matar as células de tumores interferindo nas histonas (outro aparato epigenético).

Segundo Rubens Bollos, pesquisador da Unifesp e um dos responsáveis por um simpósio de epigenética que ocorreu recentemente em São Paulo, a epigenética está envolvida com algumas das doenças que mais matam no mundo.

O contexto pode parecer animador, mas os cientistas dizem que é preciso cuidado com um possível viés marqueteiro associado à ideia.

“Muitos associam diretamente dieta com epigenética com dieta, como se esse tipo de informação fosse passível de manipulação. Até é, mas não da forma como é vendido”, afirma Camargo.

A pesquisadora diz que a maior parte do que se tem na área ainda está associado à investigação em células e animais, sem muitos exemplos concretos na área clínica.

De toda forma, segundo Oliveira, “estamos em um momento muito bom para compreender uma série de processos biológicos relacionados ao entendimento da vida. Talvez a epigenética feche um ciclo que foi iniciado com as primeiras versões do genoma humano”.



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