No telão, imagens estilo videogame das possíveis cidades do futuro seduzem um auditório de descolados. Os carros são naves não tripuladas, as ruas mudam de cor e logotipos imensos das empresas que dominam o Vale do Silício são hologramas fulgurantes a flutuar no horizonte.

Urbanistas, arquitetos e hipsters que se abalaram até Austin, no sul dos Estados Unidos, para o South by Southwest, o megafestival de cinema, música e tecnologia, lotaram uma série de encontros no último mês para ver o que o “big tech” vende como metrópoles inteligentes.

Esse rebanho de caçadores de tendências, de olhos grudados na tela do celular e a passos meio de zumbi pelas ruas de Austin, viu protótipos de táxis voadores, planos de cidades reguladas por algoritmos com o fim de governos tradicionais e outras ideias de um estranho mundo novo.

E ele pode ser um paraíso ou um inferno, dependendo de como usarem a tecnologia.

Lembrando o projeto do Google de construir um bairro hiperconectado na cidade de Toronto, no Canadá, Trevor Hardy, um dos futurólogos escalados para o South by Southwest, disse que grandes cidades vão entregar cada vez mais o comando a empresas privadas, criando um modelo de administração baseado na análise de dados de seus cidadãos.

“No futuro, moradores decidirão pelo voto que aplicativos serão instalados para gerenciar suas cidades”, disse o diretor do Future Laboratory, consultoria especializada em criar parcerias entre as cidades e empresas como Google, Nissan e Samsung.

“Temos de pensar cidades de marca como o nosso futuro. Vamos caminhar por ruas em que a tela das nossas redes sociais vai mostrar os negócios ao nosso redor competindo por atenção. A questão é se seremos utopias de marca ou distopias comerciais.”

Hardy imagina ainda o surgimento de outro tipo de contrato social, em que cidadãos vão entregar informações pessoais em troca de uma gestão urbana mais eficaz.

“Nossa vivência nas cidades do futuro terá como custo o acesso irrestrito a nossos dados”, ele disse. “Vamos ter de pensar numa neutralidade da rede urbana. Temos de imaginar empresas que vão compilar todos esses dados e como cidadãos vamos ter de decidir quem vai ter acesso.”

No caso do Sidewalk, o bairro do Google em Toronto, por exemplo, moradores vão viver num distrito sustentável, com energia renovável e banda larga ultraveloz, mas a empresa saberá de todos os seus hábitos de consumo, da conta de luz aos sites que visitam.

MONITORAMENTO

O governo chinês também já compila esses dados por aplicativos e toma decisões sobre zoneamento urbano e até empréstimos nos bancos com base no comportamento de seus cidadãos online.

Num futuro não muito distante, o monitoramento do trânsito em tempo real, por exemplo, vai poder determinar em instantes se uma rua pode ser fechada para pedestres e depois reabrir para desafogar congestionamentos.

Fachadas interativas também vão poder mudar de cor ou mandar mensagens a quem passar diante delas.

Os combustíveis fósseis também estão com os dias contados e toda a matriz energética deve ser renovável, pelo menos na visão do Google.

Kate Brandt, a chefe de sustentabilidade da empresa de buscas, falou no festival sobre projetos de energia solar e de monitoramento da qualidade do ar já em uso —um programa que calcula para as cidades onde instalar suas placas fotovoltaicas, por exemplo, está disponível em todo o território americano. 

AUTÔNOMOS

Muitas cidades também seguem de perto cada passo no desenvolvimento dos carros autônomos na tentativa de resolver a mobilidade urbana.

“Um carro autônomo e o carro elétrico são coisas que precisam estar juntas. Queremos ônibus autônomos também”, disse Steve Adler, prefeito de Austin. “É uma tecnologia com potencial excepcional e agora parece haver a consciência plena de que ela está mesmo para chegar.”

Nas contas dele, carros autônomos já vão poder circular em pelo menos 12 cidades americanas em 2019. Washington, por exemplo, estuda um corredor de veículos autônomos entre sua esplanada central e o rio Potomac.

Enquanto prefeitos ainda debatem como adaptar suas ruas e avenidas para o futuro dos carros sem motorista, o Vale do Silício sonha mais alto, imaginando uma nova geração de veículos voadores.

Noutro encontro do South by Southwest, uma fabricante de helicópteros exibia seu protótipo de um táxi voador não tripulado, uma espécie de ônibus-drone que flutuaria sobre as cidades driblando seus congestionamentos. 

Sem largar seus drinques, convidados podiam entrar nessa tal limusine do céu, como sugeria a marca, incrementando a experiência com óculos de realidade virtual que mostravam uma metrópole cintilante vista do alto.

No mesmo encontro, Nikhil Goel, chefe do departamento de aviação do Uber, disse que o aplicativo já estuda parcerias para criar uma rede de aeronaves, dizendo que o desafio no primeiro momento seria achar pilotos para suprir a demanda enorme.

Mas o futuro, todos ali pareciam estar de acordo, será só das máquinas autônomas. 

“Estamos desenvolvendo as máquinas dos sonhos, jatos pessoais, motos e carros voadores”, dizia Gwen Lighter, do GoFly, um fundo de investimentos para a criação de novas tecnologias de aviação. “Vamos usar as rotas aéreas que já existem agora, mas depois vamos fazer ainda as novas rodovias do céu.”



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