Uma das lembranças mais divertidas (e, em retrospecto, ternas) dos meus primeiros anos de carreira, no começo da década passada, era ouvir uma voz grave e empostada, meio locutor de rádio, meio barítono de ópera, bradar às nossas costas: “O quê? MENUDOS NO COMANDO?”.

Quase sempre isso acontecia por volta das 20h, quando a página da editoria de Ciência desta Folha já tinha “descido” (ou seja, tinha sido enviada em versão eletrônica para a gráfica do jornal), o editor — que podia ser mestre Marcelo Leite ou o mano Claudio Angelo — já tinha ido para casa e os membros remanescentes da equipe ainda na Redação eram os tais “menudos”: eu e o colega Salvador Nogueira, ambos então na casa dos vinte e poucos anos de idade. A voz zombeteira era a do Bona: Ricardo Bonalume Neto, veterano repórter especial de ciência e assuntos militares, que morreu na madrugada deste sábado, 24 de março de 2018, aos 57 anos.

Por causa da diferença de gerações, eu não tive a sorte de pegar a fase “selvagem” do Bona — a tradição oral da Folha relatava brigas épicas do sujeito com editores, pegadinhas com colegas e uma reputação de brilhantismo que o tempo acabaria confirmando, tanto que ele ganhou o privilégio de trabalhar de casa e continuou sendo uma figura indispensável para a cobertura de temas científicos e de conflitos pelo mundo por décadas. (O samba-enredo que ele inventou sobre Saddam Hussein até hoje me faz dar gargalhadas.) Compartilhávamos algumas paixões, como a arqueologia, a biotecnologia e a teoria da evolução, e ele acabou escrevendo a melhor resenha que alguém já fez até hoje de um livro meu, sobre o “1499: O Brasil Antes de Cabral”, que saiu no ano passado.

Como a frase dos “menudos” indica, o Bona não levava ninguém a sério — muito menos ele mesmo. Era um frasista nato, e eu poderia ficar aqui até amanhã citando seus melhores “bons mots” (alguns impublicáveis), mas outro que me marcou era o tradicional “O atraso é o preço da qualidade”, já que ele realmente se divertia ao ver editores se descabelando com uma certa demora de seus textos. Mas eles sempre chegavam, às vezes um pouco ou um muito acima do tamanho que ainda é a camisa-de-força do jornal impresso, e sempre dando conta do recado.

As brincadeiras com um suposto desleixo profissional eram muito mais coisa de quem estava fazendo tipo (alguém ainda diz isso hoje em dia?) do que algo real. Quando tivemos a chance de visitá-lo em sua casa na Vila Madalena, descobrimos que ele cuidadosamente imprimia cada artigo científico sobre o qual ia escrever, pendurava as folhas sulfite do texto numa prancheta e grifava as frases mais importantes com marca-texto amarelo-limão antes de entrevistar os pesquisadores que tinham escrito o artigo.

Ele gostava de me chamar de Petutinho e de nerd (como se ele não fosse); ateu e cético até a medula, tirava aquele sarro básico do meu catolicismo. Como aquele tio que te viu crescer, não parecia me levar muito a sério (no que fazia bem), mas era um grande sujeito, generoso, enciclopédico como a sua gigantesca biblioteca pessoal, que tinha até escada em caracol. Torço para que, quando se encontrar com são Pedro, peça informações detalhadas sobre as características enológicas do vinho especial servido nas bodas de Caná. Vai com Deus, meu velho. Você vai fazer muita falta cá embaixo.



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