Como todo mundo, este colunista ficou chocado com a estocada no deputado Jair Bolsonaro, candidato a presidente da República pelo PSL. Mais, ainda, com o que veio em seguida do mundo do dinheiro. 

Os mercados, dizem, são apolíticos, amorais até. Fala-se grosso com a força do dinheiro, mas de boca fechada. 

São ventríloquos da natureza humana, explicariam os reducionistas da neurociência. Agem movidos pelo interesse puro, sem outra consideração para consequências de seus atos além da propagação do capital. 

Pois bem: na tarde em que se deu a punhalada em Juiz de Fora (MG), a bolsa disparou. A alta na data foi de quase 2%, em descompasso com o dia ruim noutros pregões do mundo. 

A manada de investidores pressupôs que o ferimento e o risco que a vida do candidato enfrentou contribuem para aumentar sua popularidade e facilitar sua eleição. E Bolsonaro presidente, de sua óptica, seria promissor para os negócios. 

Ordem. Um ultraliberal no comando da economia. Minha arma, minha vida. Milhares de arrobas de índios e quilombolas postas em seu lugar (nenhum). O que é bom para a minha fazenda é bom para o Brasil. 

Só que não. Primeiro, parece duvidoso que o mito se eleja (embora não impossível). Depois, ninguém sabe —nem a fauna que o cerca— o que seria um governo Bolsonaro. Como ter certeza de que funcionará, contra todas as indicações em contrário? 

Em realidade, os apostadores do mercado estão atrás só de lucro imediato. Sabem que nenhum país pode se erguer com base em duas ou três ideias truculentas. Não resistem à perspectiva de ganho rápido e fácil, na alta paradoxalmente impulsionada pelo momento de instabilidade política. 

Nesse sentido, não são amorais (não agem assim por serem desprovidos de sentido moral), mas imorais: sabem bem o que fazem de errado e seguem em frente. Dormem bem. Aprovam até facadas, desde que deem resultados. 

Cabe aqui suspender o juízo e renunciar à execração dos povos do mercado, como diz Vinícius Torres Freire, pela primariedade de seus reflexos. Todos nós temos um pouco do escorpião da fábula, que apunhala o sapo e abraça a morte para bater continência à própria natureza. 

Que atire o primeiro post quem nunca fez piada ou meme com a desgraça alheia.

 



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