Um novo estudo parece ter colocado os cientistas na trilha para compreender como se deu a evolução — e o posterior desaparecimento — do grande oceano que provavelmente existiu no hemisfério Norte de Marte. E ele é mais antigo do que se imaginava, remontando a uma época tão distante quanto 4 bilhões de anos atrás.

As principais evidências de que o planeta vermelho já foi ao menos parcialmente azul são traços geológicos ao longo das planícies do norte de Marte que se assemelham muito a antigas linhas costeiras.

Esses sinais, contudo, vêm embalados num mistério: eles parecem refletir diferentes níveis do mar, quase como se cada linha costeira remanescente contasse uma história diferente sobre esse oceano antigo. Não era nada fácil juntar todas elas numa única narrativa consistente.

A chave, ao que parece, está a milhares de quilômetros de distância, na região de Tharsis, que abriga os maiores vulcões marcianos, dentre eles o imponente Monte Olimpo — o maior vulcão do Sistema Solar.

Robert Citron, Michael Manga e Douglas Hemingway, da Universidade da Califórnia em Berkeley, sugerem em artigo publicado na revista Nature que foi a formação e crescente expansão de Tharsis que levou à mudança das linhas costeiras, dada a deformação que o processo vulcânico causou à estrutura do planeta. Os vulcões entortaram Marte, e as linhas do oceano se deslocaram de acordo, num processo marcado por uma redução gradual do volume do oceano ao longo de meio bilhão de anos.

Os pesquisadores contrastaram seu modelo com as diversas linhas costeiras conhecidas e a história pareceu se encaixar. De algum modo, a evolução do antigo oceano marciano e a fase vulcânica mais ativa do planeta, entre 4 bilhões e 3,5 bilhões de anos atrás, estão interligadas.

A conexão entre o crescimento de Tharsis e a mudança das linhas costeiras é convincente, embora ainda não conclusiva, e sugere que o oceano já estava lá durante a era das grandes erupções dos vulcões marcianos.

O que não está claro ainda é a exata contribuição dos vulcões para o ambiente habitável de Marte durante essa era antiga. Vulcões despejam vapor d’água e dióxido de carbono na atmosfera — dois poderosos gases-estufa que podem ter contribuído para manter o planeta suficientemente aquecido naquela época para conservar um oceano.

Em compensação, sabe-se também que vulcões são famosos por despejar grandes quantidades de dióxido de enxofre, que na estratosfera age de forma a refletir a radiação vinda do espaço e, com isso, esfriar o planeta.

Os efeitos do dióxido de enxofre, ao menos na Terra, são mais rápidos e se dissipam em poucos anos. Já a injeção de dióxido de carbono tem efeito durante um século ou mais. Esse contraste, assim como o pouco conhecimento que temos a respeito das erupções de Tharsis, tornam difícil determinar o que aconteceu.

Teriam as erupções do Monte Olimpo e seus colegas alimentado a superfície de Marte com a água que preencheu o oceano? Teria o vulcanismo aquecido o planeta e contribuído para a relativa estabilidade do oceano, uma vez que parece haver correlação entre a redução do volume oceânico e a redução da atividade geológica em Tharsis? Ou os vulcões resfriaram Marte congelando o oceano? Poderia o oceano permanecer a maior parte do tempo congelado e só infrequentemente sofrer um degelo?

Essas são todas perguntas que ainda aguardam respostas satisfatórias. Está claro que Marte teve um passado remoto extremamente interessante e pode ter sido tão hospitaleiro à vida quanto a Terra, 4 bilhões de anos atrás. Mas que passado exatamente foi esse ainda é um enigma a ser decifrado, o que dificilmente vai acontecer sem que possamos prosseguir investigando de perto o planeta vermelho nos próximos anos — com sondas, jipes robóticos e quem sabe até astronautas geólogos.



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