O prognóstico de que haverá uma troca maciça de humanos por máquinas no mercado de trabalho é insuficiente para dar conta da complexidade do que pode vir a ser o futuro do emprego.

Uma ala de futuristas e pesquisadores acredita num modelo híbrido, no médio prazo. Nele, robôs teriam o papel mais de assistentes e ficariam encarregados, por exemplo, de processar grandes quantidades de informação.

Isso para funções mais complexas, que demandam maior esforço cognitivo. Empregos baseados em tarefas repetitivas não estão apenas fadados a desaparecer, muitos já nem existem mais.

“‘Robô é igual a desemprego‘ é uma visão simplista”, diz Glauco de Paula Caurin, coordenador do Centro de Robótica da USP, sediado na Escola de Engenharia de São Carlos (interior paulista).

De acordo com ele, diversos dispositivos em desenvolvimento hoje seriam responsáveis, sozinhos, pela criação de novas vagas e indústrias.

É o caso do robô-cirurgião. “A máquina não vai substituir o cirurgião. Ele continua lá. Trata-se de uma ferramenta que vai auxiliar o processo”, diz Glauco. Por trás do balcão, gera trabalho para quem desenvolve, vende e dá suporte para os equipamentos.

Vale pontuar que o termo robô é usado tanto para máquinas humanoides quanto para inteligência artificial, campo que, muito provavelmente, será o mais decisivo para o amanhã do trabalho.

Para a futurista Jaqueline Weigel, a adoção de novas tecnologias não significa prescindir da “mão humana”. “O futuro é virtual e presencial. Quando falamos de inteligência artificial, não falamos dela atuando sozinha.”

A advocacia, uma das profissões que exigem empenho cognitivo, poderia se beneficiar do auxílio das máquinas. A aplicação seria no processamento de dados (no caso, leis e suas mudanças). 

Para além de questões práticas, há um debate em torno da própria natureza do futuro. É possível desencadear ações hoje que poderiam, em alguma medida, atenuar o que está por vir. O estopim é o questionamento da natureza das próprias previsões.

A futurista Rosa Alegria, umas das precursoras desse tipo de estudo no país, afirma que o mundo do pós-guerra se acostumou a ser vítima do futuro e “acaba não acreditando na capacidade de mudá-lo”. Ela defende que a humanidade assuma o papel de protagonista, pois “somos a única espécie capaz de imaginar universos possíveis“.

Dentro das alternativas para o amanhã, uma constante é o fato de que as alterações no mercado vão mudar o que conhecemos por sociedade, já que o trabalho serve como âncora para a coletividade.

Isso se resume num questionamento da também futurista Daniela Klaiman: “Se o trabalho não existir, o que vai dignificar o homem?”. “Talvez a doença do futuro seja o tédio.”

Para que tudo não acabe em distopia, “é preciso descolonizar nossas mentes de profecias autorrealizáveis”, diz Rosa.

“Literalmente, cinco caras estão determinando o futuro de toda a humanidade. E a gente está deixando”, diz Daniela. Ela se refere aos homens por trás de Amazon, Google, Facebook, Tesla e Alibaba.

Em paralelo, mas com consequência direta no mercado, há uma tendência de as pessoas deixarem de lado uma maneira racional de ver o mundo e adentrarem a esfera das emoções. Nesse contexto, segundo Daniela, o papel do feminino tem muita força.

Isso se traduz na ascensão da empatia –“a gente nunca falou tanto em se colocar no lugar do outro”– e de profissões baseadas nela, como enfermeira e parteira (isso não quer dizer que mulheres devam ocupar só esse cargos).

São justamente tarefas que as pessoas não deixariam a cargo dos robôs. Por isso, Daniela acredita que a mulher é a força mais bem preparada para lidar com o futuro do emprego. Por outro lado, funções tradicionalmente ligadas ao lado masculino, que exigem força, podem ser facilmente executadas por máquinas.

As chamadas soft skills (comunicação, trabalho em equipe, criatividade, atitude proativa), hoje já uma realidade nas empresas, também devem ganhar espaço. Elas se opõem às competências técnicas.

“É o que vai fazer a diferença”, afirma Leonardo Berto, gerente de negócios da consultoria Robert Half. 

No entanto, não basta dominar essas habilidades. Ainda segundo Leonardo, a discussão sobre quem seria o “super-homem” do mercado depende do perfil da empresa, de variáveis que vão de nacionalidade a tipo de gestão.



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