Quando viu na televisão o prédio do Museu Nacional em chamas, a primeira preocupação de Dhiovana, de 7 anos, foi com os dinossauros e os “homens que dormiam”- como a menina chama as múmias egípcias que viu pela primeira vez no museu.


“Papai, mas vai queimar os dinossauros? Os homens dormindo vão conseguir sair dali?”, perguntou.


Dhiovana é encantada por dinossauros e ganhou de presente de aniversário, no ano passado, uma visita ao “Museu da Quinta”, que guardava o maior acervo arqueológico do Brasil. No domingo, mais de 90% dos 20 milhões de itens se perderam em um incêndio.


“O sonho dela era conhecer o museu e ver os esqueletos de perto. Ficou tão animada quando eu disse que íamos passar o aniversário de 7 anos dela lá que passou a noite acordada”, contou à BBC News Brasil o pai da menina, Genival Soares da Silva, que trabalhou a maior parte da vida como pedreiro e hoje vive da renda do aluguel de imóveis que construiu com as próprias mãos.


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“O que ela mais amou foi a parte dos dinossauros. Não parava de fazer perguntas sobre o que eles comiam, como viviam… E eu contei da pedra que caiu do céu, que era o meteorito exposto lá. Ela ficou entusiasmada com aquilo tudo.”







Nos meses que se seguiram, Dhiovana falou tanto sobre a experiência a parentes e amigos que conhecer o Museu Nacional passou a ser, também, o sonho de dois primos dela. Mas não deu tempo de as crianças conhecerem as múmias e esqueletos de dinossauros.


“Eles disseram que tinham dois desejos de aniversário: conhecer o Museu da Quinta e o Maracanã. O Maracanã eu disse que é muito caro, mas prometi levar ao museu. Iríamos nas próximas semanas”, lamenta o pai da menina.


Museu era acessível aos mais pobres


Dhiovana e a família se enquadram no perfil majoritário de quem visitava o Museu Nacional – pessoas de classe média e classe média baixa que, em muitos casos, visitavam pela primeira ou segunda vez um museu.


Segundo uma pesquisa inédita da professora da Escola de Museologia da Unirio Andrea Costa, pesquisadora do Observatório de Museus e Centros de Ciência e Tecnologia, quase metade dos frequentadores em 2017 e 2018 – 46% – possuia renda baixa (1 a 3 salários mínimos). Para obter essa informação, foram distribuídos e respondidos 477 questionários ao longo de um ano.


O resultado será incorporado a um levantamento mais amplo do Observatório de Museus e Centros de Ciência e Tecnologia, ligado à Fundação Oswaldo Cruz, que periodicamente coleta dados dos principais museus de ciência do Rio de Janeiro para traçar o perfil do público.







Em 2013, os mais pobres eram 33% dos visitantes do “Museu da Quinta”, e mesmo assim ele ficava atrás apenas do Museu da Vida – localizado em Manguinhos, zona norte do Rio – em percentual de visitantes de baixa renda, dentre os cinco museus de história natural do Rio de Janeiro analisados pelo Observatório.


A título de comparação, dos visitantes do Planetário do Rio, só 10% têm renda baixa, segundo o levantamento.


Andrea Costa também analisou o perfil do público que frequentou o museu nos horários em que havia entrada gratuita e percebeu que o percentual de visitantes de baixa renda saltava para 55,5%. Entre abril de 2017 e abril de 2018, as pessoas poderiam entrar de graça, todos os dias, uma hora antes do horário de fechamento, e fazer a visita em duas horas. Depois de abril deste ano, a entrada passou a ser gratuita no segundo domingo do mês, durante todo o dia.


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“O que a gente percebeu é que mudou o público do museu. Conseguimos levar para lá o público que frequentava o parque, mas não entrava no prédio. A maioria dos visitantes passou a ser de baixa renda e se declarar preto e pardo”, disse à BBC News Brasil.


Localização e dias de entrada gratuita


Segundo Andrea Costa, pesquisas mostram que, em geral, o público dos museus do Brasil é composto por pessoas de classe média e média alta. “A classe média tem mais chance de acessar os museus, porque costuma morar mais perto de onde a maioria deles está localizada ou consegue pagar passagem para chegar até eles. E o nível de escolaridade das pessoas influencia”, disse.


“A maior parte dos visitantes tem alto nível de escolaridade, e crianças filhas de pais com alta escolaridade têm mais capacidade e incentivos para visitar museus.”


Mas então como é que o Museu Nacional conseguia atrair as camadas mais pobres, mesmo fora do horário gratuito?


A jornalista Fernanda Guedes procurou responder isso na sua tese de mestrado na Universidade Federal Fluminense, para a qual observou visitantes do museu por um ano, entrevistando mais de 60 deles. Segundo ela, um dos fatores que contribuiam para o acesso das camadas mais pobres era a localização do edifício, na zona norte do Rio de Janeiro.


“Lá atrás, o próprio imperador Pedro 2º autorizou a moradia de pessoas mais pobres na Quinta da Boa Vista, como indivíduos de classes operárias e viúvas de militares. Depois, na República, o local passou a ser referido como o playground da perferia, por causa dos lazeres públicos e do parque”, detalha ela, que também é funcionária do setor de comunicação do museu.


“Temos comunidades nas proximidades, como a de São Cristovão, a Mangueira, o morro do Tuiuti e a Barreira do Vasco. Além disso, o acesso é facilitado por estações de ônibus e trem.”


Busca por lazer em família


Fernanda Guedes e Andrea Costa afirmam que a grande maioria dos visitantes (71%) frequentava o museu acompanhada – muitos iam com filhos e netos. Era, portanto, um local de passeio em família.


Cada ingresso custava R$ 8, o que para as camadas mais pobres pode ser muito, quando se considera a compra para vários integrantes da família, além de custos com passagem e alimentação.


Por isso, as pesquisadoras acreditam que a oferta de ingressos gratuitos também teve peso na diversificação do público a partir de 2017.


“Para uma parte do público, fez diferença não ter que pagar para entrar. Para quem vinha de longe, era um custo a menos para somar à passagem. E para quem já morava no entorno da Boa Vista virou um incentivo a mais”, diz Andrea Costa.


E o que as camadas mais pobres buscavam ao visitar o museu? Fernanda Guedes afirma que a motivação mais mencionada pelos visitantes que entrevistou era “lazer” e a possibilidade de conhecer “objetos que sempre fizeram parte do imaginário”, como esqueletos de dinossauros, múmias e a preguiça gigante – todos parte do acervo do museu.


Mas as visitas despretenciosas abriam as portas para um maior interesse em ciência. No caso de Dhiovana, conhecer as peças arqueológicas, indígenas e egípcias de perto fez com que a menina fosse atrás, depois, de mais informações. “Eu gostei muito dos dinossauros e das múmias”, contou à BBC News Brasil.


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“Como é uma História muito importante da humanidade, queria que ela visse aquilo pessoalmente, os animais extintos, os dinossauros, as múmias. Acho que, vendo de perto, você aprende mais”, avalia Genival, o pai da garota.


Segundo Fernanda Guedes, cerca de 5 escolas visitavam o museu a cada dia. Os alunos de instituições públicas entravam gratuitamente. No caso das escolas particulares, era cobrado ingresso de R$ 2 por aluno. Em algumas crianças, a visita despontava o interesse de seguir carreiras que elas não sabiam existir.







“Era, muitas vezes, o primeiro contato das crianças com o aspecto de um aprendizado que poderia se tornar uma profissão. ‘Eu posso ser um palentológo, um cientista, um astrônomo’. Gerava essa perspectiva de perseguir profissões que elas, talvez, jamais soubessem que existiam ou, se soubessem, poderiam considerar uma perspectiva muito distante.”


Sem a possibilidade de voltar ao museu para levar os sobrinhos, Genival se apega às memórias do que chamou de um dia “maravilhoso em família”. E Dhiovana mantém o museu vivo do seu jeito, descrevendo aos primos o susto que levou ao ver os “homens dormindo” na ala egípcia e a alegria que sentiu em conhecer um “dinossauro de verdade”.



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