A sonda Juno segue em sua missão de decifrar o interior de Júpiter, e uma nova leva de artigos científicos acaba de ser publicada na revista “Nature”. Há muitas revelações interessantes, uma das quais que, a uma profundidade de 3.000 km do topo das nuvens, o maior planeta do Sistema Solar, embora seja um gigante gasoso, gira como se fosse uma bola sólida.

Já era uma desconfiança dos cientistas. Sabe-se que Júpiter, a exemplo do próprio Sol, é majoritariamente feito dos elementos mais abundantes do Universo, hidrogênio e hélio. Ainda se estuda exatamente como esses gases se comportam a pressões cada vez maiores, e havia uma suspeita de que, a partir de uma determinada profundidade, ele se tornassem fluidos metálicos, por onde elétrons e prótons fluem livremente — daí o poderoso campo magnético de Júpiter. A essa profundidade, embora hidrogênio e hélio se tornem fluidos, o planeta em si se comporta como um esferoide sólido em sua rotação.

Os trabalhos publicados por dois grupos, um encabeçado por Yohai Kaspi, do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, e outro por Tristan Guillot, da Université Côte d’Azur, na França, corroboram essa visão, indicando que a transição em que os ventos da atmosfera joviana dão lugar a esse comportamento acontece a mais ou menos 3.000 km do topo das nuvens. Para efeito de comparação, Júpiter tem um raio de 69,9 mil km. Nessa camada superior, estão apenas 1% da massa total do planeta.

Os estudos são baseados nos dados do instrumento de rádio da Juno. A ideia é medir a transmissão da espaçonave para a Terra, cuja frequência exata é influenciada pelo campo gravitacional a que ela está submetida conforme passa perto de Júpiter. Pequenas variações na frequência indicam pequenas variações no campo gravitacional, que por sua vez apontam pequenas diferenças na distribuição de massa no interior do planeta.

Concepção artística da sonda Juno em órbita de Júpiter (Crédito: Nasa)

Com efeito, um outro grupo, liderado por Luciano Iess, da Sapienza Universitá di Roma, na Itália, publicou artigo correlato, indicando que o campo gravitacional de Júpiter varia de polo a polo. Ou seja, há uma assimetria entre a quantidade de massa que se faz presente no polo Norte, comparada ao polo Sul. Isso é surpreendente e inesperado para um planeta como Júpiter, que tem rápida rotação e é bastante achatado nos polos. De acordo com Iess e seus colegas, isso tem a ver com os fluxos de vento na atmosfera de Júpiter.

Que Júpiter é um rei da ventania, nunca foi segredo. Observando o topo das nuvens — o que se pode fazer até da Terra, ao telescópio — vemos que o maior planeta do Sistema Solar é composto por faixas alternadas claras e escuras que fluem em direções opostas.

Até a Juno, ninguém sabia se essa era uma característica apenas superficial, do topo da atmosfera, ou se refletia nas profundezas do planeta. Graças aos dados da sonda, sabemos que a segunda opção é a correta.

Capa da “Nature” desta semana destaca as novas descobertas de Júpiter. (Crédito: Nature)

“A descoberta mais estonteante de Iess e seus colegas é que há um componente do campo gravitacional de Júpiter que não mostra simetria norte-sul — uma observação peculiar para um planeta gigante gasoso em rotação rápida”, afirma Jonathan Fortney, pesquisador da Universidade da Califórnia em Santa Cruz que não se envolveu nos trabalhos, mas comentou-os em artigo separado para a “Nature”.

“Kaspi e seus colegas mostram que essa característica é resultado da assimetria latitudinal na velocidade dos ventos na superfície. A única maneira de esses ventos poderem afetar o campo gravitacional do planeta é se eles estiverem relativamente fundo e envolvessem uma quantidade substancial de massa. Isso implica que as faixas de Júpiter não são um fenômeno superficial, respondendo à velha questão.”

Os resultados da equipe de Kaspi sugerem que a magnitude dos ventos vai diminuindo vagarosamente com a profundidade até 3.000 km de profundidade, onde a pressão é cerca de 100 mil vezes maior que a da atmosfera da Terra ao nível do mar. É uma diferença brutal, inimaginável.

O quarto trabalho, o único a não envolver medições de gravidade, e sim observações em luz visível e infravermelha das regiões polares, foi conduzido por Alberto Adriani, do Istituto di Astrofisica e Planetologia Spaziali, na Itália, e colegas, e seu foco foi caracterizar os ciclones presentes nos polos de Júpiter — outra das surpresas da missão.

O trabalho concluiu que, no polo norte, oito ciclones circumpolares giram ao redor de um único ciclone, enquanto no sul o ciclone polar é cercado por outros cinco. Está claro que os ciclones formam um padrão poligonal ao redor do polo, mas os cientistas admitem não ter a mais vaga ideia de como eles podem ser persistentes, sem se fundirem, ou qual é sua origem. Os turbulentos polos de Júpiter continuam sendo um grande mistério — um que a Juno continuará a investigar ao longo de sua missão.

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