Comecemos deixando às claras os possíveis conflitos de interesse relacionados a este texto, como convém à discussão honesta sobre temas científicos. Fui entrevistado para a série de TV “Guia Politicamente Incorreto”, do canal History, baseada no best-seller sobre história do Brasil do jornalista Leandro Narloch, que está sendo exibida há algumas semanas. Não gostei da maneira como editaram minhas falas e do tom geral dos episódios nos quais apareço, porque a produção ignorou solenemente o que há de mais atualizado e bem fundamentado a respeito da história pré-colombiana do nosso território –área de pesquisa que, não por acaso, é o mote do meu livro mais recente, “1499: O Brasil Antes de Cabral”.

Alguém mais cínico, portanto, poderia achar que estou apenas tentando tirar uma casquinha do sucesso editorial de um colega. É lógico que eu quero que meu livro venda –mas quero mais ainda que o público tenha acesso à visão mais completa possível dos fatos. E é nesse ponto que o “Guia Politicamente Incorreto” tem fracassado feio, em especial no que diz respeito ao passado desta terra antes que os europeus dessem as caras por aqui.

O problema central da série é que, embora a proposta declarada seja desmontar clichês e visões ideologicamente motivadas de figuras da nossa história, o que de fato ocorre é substituir um clichê por outro. No caso específico dos indígenas, o mito que Narloch e os produtores da TV decidiram “pegar para Cristo” (como a gente diz aqui em casa) é o do bom selvagem: o índio puro, inocente, um descendente direto de Adão antes que nossos primeiros pais dessem a fatídica mordida na fruta proibida do Éden.

Até aí, está justíssimo. Mais do que bons ou maus, os habitantes originais do que viraria o Brasil eram gente. Feito eu e você. Com capacidade similar para fazer besteira em todos os aspectos (e também para realizar coisas interessantes, engenhosas e, ocasionalmente, geniais). O problema é que o programa transformou o bom selvagem em selvagem do Demo. Quem deglutir o que o “Guia” diz sem questionar sairá por aí repetindo que todos os índios eram nômades destruidores da natureza, desmatadores e dizimadores de espécies sem piedade que, quando sobrava um tempinho, só pensavam em matar e comer os vizinhos. Ah, e ainda transmitiram a sífilis para os pobres europeus.

Como talvez o leitor saiba, dá para contar uma mentira imensa contando apenas verdades –ou pedacinhos dessas verdades. No território brasileiro, por exemplo, os indícios de que os primeiros habitantes caçaram até a extinção a chamada megafauna (grandes feras da Era do Gelo, como preguiças do tamanho de elefantes e tatus do tamanho de um Fusca) quase não existem. Ok, esses animais somem alguns milênios depois da chegada do homem, mas essa fase também foi marcada por mudanças climáticas sérias, e ninguém sabe ainda qual o peso desses dois fatores.

Sobre nomadismo e desmate constante: talvez essas condições fossem prevalentes entre muitos grupos tupis do nosso litoral, mas a arqueologia tem mostrado faz décadas que, tanto na Amazônia quanto na região Sul, havia aldeias com milhares de habitantes sedentários, que construíam estradas, monumentos (de terra e, no Amapá, até de rocha maciça) e ali viviam por centenas de anos a fio. Guerras antropofágicas? De novo, exclusividade dos tupis – que não correspondiam nem a 5% dos grupos que existiam aqui. Sífilis? Foi a única doença infecciosa nativa das Américas a causar estrago na Europa, enquanto moléstias europeias e africanas –sarampo, varíola, malária– mataram muito mais gente por aqui, no nosso primeiro 7 a 1.

O engraçado é o seguinte: o pessoal do “Guia”, se quisesse, poderia muito bem ter usado a nova e mais correta visão sobre o passado do Brasil para corroborar a tese deles, em parte –afinal, indígenas sedentários, numerosos e em sociedades complexas teriam potencial bem maior para afetar ambientes naturais do que um punhado de nômades. Mas nem tentaram usar esse argumento: não basta que o índio pintado por eles seja mau, ele também tem de ser tosco. Fica aqui o desafio: se a motivação deles para esse retrato não for tão ideológica quanto a da “doutrinação esquerdista” que criticam, já passou da hora de uma revisão.



DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here