A administração Trump quer converter a Estação Espacial Internacional em uma espécie de empreendimento imobiliário em órbita, administrado não pelo governo, mas pelo setor privado.

A Casa Branca pretende parar de financiar a estação a partir de 2024, encerrando o apoio federal direto ao laboratório em órbita. Mas não pretende abandoná-lo por completo e, segundo um documento interno da Nasa ao qual o “Washington Post” teve acesso, prepara um plano de transição que pode entregar a estação ao setor privado.

“A decisão de encerrar o apoio federal direto à EEI em 2025 não significa que a plataforma será retirada de órbita nesse momento. É possível que o setor privado possa continuar a operar certos elementos ou capacidades da EEI como parte de uma plataforma comercial futura”, diz o documento. “A Nasa vai ampliar suas parcerias internacionais e comerciais ao longo dos próximos sete anos de modo a assegurar o acesso e a presença humana contínuos em órbita terrestre baixa.”

Em seu pedido de orçamento a ser divulgado na segunda-feira (12), a administração deve solicitar US$ 150 milhões no ano fiscal de 2019 “para viabilizar o desenvolvimento e maturação de entidades e capacidades comerciais que vão assegurar que os sucessores comerciais da EEI –potencialmente incluindo elementos da EEI– estejam operacionais quando se tornarem necessários”.

O plano de privatização da estação deve enfrentar forte oposição, mesmo porque os Estados Unidos já gastaram quase US$ 100 bilhões para construir e operá-la. Na semana passada, o senador republicano Ted Cruz disse que espera que as notícias recentes sobre a decisão da Nasa de deixar de financiar a estação “revelem ser tão sem fundamento quanto Pé Grande”.

“Como conservador fiscal, você sabe que uma das maiores burrices que se pode fazer é cancelar programas depois de investir bilhões neles e quando ainda há longa vida utilizável pela frente”, disse.

A Nasa estuda no momento a possibilidade de a vida da EEI ser estendida até 2028. Mas algumas pessoas questionaram quem pode se interessar em assumir a responsabilidade pela EEI.

“A EEI foi construída para a exploração científica e humana, e não para dar lucros”, disse Andrew Rush, executivo-chefe da empresa Made in Space, que utiliza impressão 3D na estação espacial.

Frank Slazer, vice-presidente de sistemas espaciais da Associações de Indústrias Aeroespaciais, disse que os parceiros internacionais da estação podem achar o plano problemático.

“Será muito difícil transformar a EEI em um empreendimento comercial,devido aos acordos internacionais em que os EUA estão envolvidos”, disse. “A EEI sempre será em sua essência um construto internacional que requer cooperação multinacional.”

Hoje a Boeing opera a estação para a Nasa, ao custo de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões ao ano. No mês passado, quando circularam notícias sobre a possibilidade de a Nasa descontinuar a estação, Mark Mulqeen, o gerente da Boeing para programas da estação espacial, disse que “afastar-se da EEI agora seria um erro que colocaria a liderança americana em risco e prejudicaria o mercado comercial, além da comunidade científica.”

O documento interno da Nasa inclui poucos detalhes sobre como pode funcionar a privatização. A Casa Branca disse que, como parte dos preparativos para um plano de transição, vai pedir “análises de mercado e planos econômicos do setor comercial”.

A transição da estação assinalaria mais um passo ousado da Nasa na transferência ao setor privado da chamada órbita terrestre baixa, para poder concentrar seus recursos na exploração do espaço profundo. Sob a presidência de George W. Bush, a Nasa deu os primeiros passos para terceirizar voos de reabastecimento de cargas da estação à SpaceX e à Orbital ATK. O presidente Barack Obama estendeu esse modelo, contratando a Boeing e a SpaceX para levar astronautas à estação.

Tradução de CLARA ALLAIN



DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here