A datação da jornada dos seres humanos anatomicamente modernos da África para o resto do mundo está ficando cada vez mais antiga e mais complicada. O último achado relevante sobre essa grande viagem a ser publicado é o de um único ossinho – a falange de um dedo da mão – descoberto num lugar chamado Al Wusta, na Arábia Saudita. Diversos métodos diferentes de datação indicam que o “dono” do osso viveu há pelo menos 85 mil anos, numa época em que não se esperava achar membros da espécie Homo sapiens vivendo tão longe do continente africano.

Até pouco tempo atrás, a expansão dos ancestrais da humanidade moderna pelo mundo costumava ser vista, grosso modo, em duas etapas. Depois de surgir há cerca de 200 mil anos na África Oriental, alguns Homo sapiens teriam chegado ao atual território de Israel 100 mil anos mais tarde. Lá, depois de trombar com os neandertais, nossos primos originários da Europa, os primeiros humanos anatomicamente modernos teriam recuado.

Eles só voltariam a deixar o ninho africano por volta de 60 mil anos atrás, quando partiram tanto para o leste, rumo às vastidões da Ásia, quanto para o oeste, na direção do continente europeu. Com esse avanço relativamente rápido, tornamo-nos a única espécie do gênero Homo da Terra uns 30 mil anos atrás, desbancando neandertais, denisovanos (da atual Sibéria), o Homo erectus do Sudeste Asiático e talvez outros primos arcaicos. E o corredor para esse êxodo teria sido, novamente, o atual território de Israel e da Palestina.

Bem, o fóssil bastante antigo da Arábia Saudita – a idade mínima é de 85 mil anos, mas poderia chegar a quase 100 mil anos – parece quebrar essa lógica. (Sim, é só uma falange, mas a comparação com dedos de neandertais e outros primatas praticamente não deixa dúvida de que pertencia mesmo a um humano moderno.) O interior árabe naquela época era mais úmido e tinha vegetação mais luxuriante do que hoje, e a própria localização do sítio arqueológico sugere uma possível travessia por mar diretamente da África Oriental para a Arábia, sem a passagem esperada pela Palestina.

Daria pra imaginar, portanto, mais um caminho para a migração do H. sapiens e, talvez, um processo mais gradual de expansão rumo ao resto do mundo. Essa ideia é reforçada por dois dados intrigantes: crânios associados à nossa espécie com cerca de 300 mil na África; e recentes descobertas de restos de H. sapiens em Israel com quase 200 mil anos. Ainda falta montar melhor essas novas peças do quebra-cabeças, é claro.

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