Diversos tipos de cânceres podem ser prevenidos e facilmente tratados se detectados precocemente, mas grande parte da população brasileira desconhece os métodos de prevenção e rastreamento adequados, principalmente por falta de acesso à informação ou desinteresse.

Um caso emblemático é o do câncer de colo de útero, praticamente erradicado em países desenvolvidos. Apesar de ter um modelo ideal de rastreamento, baseado na vacinação contra o vírus HPV e no exame de papanicolau (ambos disponíveis no sistema público de saúde), ainda é o terceiro tipo mais comum que afeta as mulheres no país, com altos índices de letalidade. 

“Nada é tão eficaz no controle da mortalidade quanto a prevenção primária, e não temos feito o dever de casa”, disse a oncologista Angélica Nogueira Rodrigues, presidente do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos.

O tema foi debatido no seminário Tecnologia Contra o Câncer, realizado pela Folha nesta quinta-feira (6) no Rooftop 5 & Centro de Convenções, em São Paulo, com patrocínio do laboratório Roche e apoio do Hospital Sírio-Libanês e da farmacêutica Abbvie.

No caso específico do câncer de colo de útero, a deficiência é reflexo tanto da falta de interesse e de conscientização das mulheres quanto do escasso acesso à informação, na opinião de Angélica Rodrigues.

“Precisamos conscientizar. Discussões não têm tido efeito, porque provavelmente só algumas mulheres que souberam dos perigos vão se cuidar, mas as que não tiveram acesso a isso, não.”

Levantamento feito nos Estados Unidos mostrou que, entre os cânceres mais comuns, os primeiros cinco são facilmente preveníveis, relatou Artur Katz, diretor-geral do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês.

Cuidados simples, como evitar o tabagismo, manter o peso ideal e a alimentação saudável, tomar vacina e conhecer a história da família já são eficazes para reduzir os riscos de aparecimento de tipos variados da doença.

Para disseminar esse conhecimento, é preciso ter em mente que o Brasil apresenta realidades muito distintas e que orientações sobre a prevenção não chegam em todas as regiões.

“Infelizmente, ainda carecemos muito de questões básicas de informação”, afirmou Eduardo Calderari, diretor de acesso ao mercado, relações governamentais e operações comerciais na Roche Farma Brasil. “Nos últimos dois anos, temos trabalhado com projetos de capacitação para profissionais de saúde pelo país, e vimos que ainda tem muito a ser feito.”

Para a presidente do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos, a criação de campanhas específicas e unificadas para aumentar o rastreamento seria uma saída para resolver o problema.

Ela defendeu a mobilização conjunta da sociedade para a criação de um marco para a proteção contra o câncer de colo de útero, como é o caso do Outubro Rosa, para o de mama, e o Novembro Azul, para o de próstata, alvo de campanha apesar de a doença possuir métodos de rastreamento controversos.

Para a oncologista, é necessário incentivar a vacinação contra o vírus do HPV, incluindo a segunda dose, e disseminar a importância do papanicolau, que oferece tanto prevenção primária quanto secundária.

Outra dificuldade das campanhas de conscientização é atingir o público jovem, de acordo com os palestrantes, uma vez que o câncer também é muito associado ao envelhecimento.

As campanhas de vacinação devem ser estratégicas, sugere Artur Katz. “Por que não fazer um mutirão nas escolas e vacinar todo mundo, uma coisa compulsória?”

TESTES GENÉTICOS

A prevenção baseada em testes genéticos, que detectam mutações no DNA associadas ao aparecimento de certos tipos de cânceres, como de mama e ovário, também foi pauta no debate, mediado pelo repórter da Folha Everton Lopes Batista.

Mayana Zatz, geneticista diretora do Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da USP, lembrou que, apesar de promissora, a técnica suscita uma série de dilemas éticos que ainda precisam ser discutidos no meio científico.

“O que fazer quando você procura uma mutação para uma doença e encontra outra? E se for uma criança, por exemplo, devemos contar a ela ou não?”, questionou, lembrando outro cuidado necessário. “Se a pessoa não tem a mutação do câncer de mama, isso não permite que ela deixe de se cuidar, porque ninguém está livre de risco.”

Zatz afirmou também que o procedimento não é recomendado para todos, mas para aqueles que possuem histórico de parentes de primeiro grau com a doença ou que sabidamente tenham desenvolvido cânceres hereditários –que são minoria, em torno de 5% dos diagnósticos.

Artur Katz, do Sírio-Libanês, ressaltou que a ciência não reconhece todas as mutações que podem estar relacionadas ao câncer e destacou a importância de consultar um especialista para fazer esses exames. “Às vezes, as pessoas consultam médicos de família, que podem fazer testes errados, e acham que não correm risco.”



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