Uma placa vermelha proeminente recebe os visitantes na remota e poeirenta Gulu, cidade agrícola em Uganda, com uma mensagem em letras garrafais: “Esta é uma zona 4G, agora”.

Isso se deve em parte ao Facebook, que, em parceria com a subsidiária ugandense da gigante das telecomunicações indianas Bharti Airtel e com o Bandwidth & Cloud Services Group, das Ilhas Maurício, instalou cerca de 800 quilômetros de cabos de fibra óptica no noroeste de Uganda, no leste da África.

O projeto, finalizado em 2017, ofereceu acesso mais rápido à internet em uma área com cerca de 3 milhões de moradores.

Muitos deles ainda vivem em locais assombrados pelas lembranças das três décadas de insurgência do Exército de Resistência do Senhor, liderado por Joseph Kony.

O cabo ugandense é a maior rede terrestre que o Facebook ajudou a construir na África e parte do que a empresa descreve como esforço de conectar as 3,8 bilhões de pessoas desprovidas de acesso à internet no planeta. 

A jogada surge no momento em que o crescimento de usuários do Facebook começa a se desacelerar nos Estados Unidos e na Europa.

 O Facebook tem 131 milhões de usuários ativos ao mês na África Subsaariana, cuja população é de 1,06 bilhão de pessoas. Quase todas têm acesso à companhia via celular. 

Em Uganda, o potencial de crescimento é enorme: apenas 42% dos aproximadamente 43 milhões de ugandenses têm celulares, de acordo com o Groupe Speciale Mobile Association. O Google também investiu em cabos de fibra óptica na capital do país, Campala.

Os críticos dizem que as empreitadas do Facebook em mercados subdesenvolvidos podem solapar a neutralidade da rede ao canalizar tráfego à plataforma da companhia, desviando-o de concorrentes.

Um esforço anterior do Facebook para expandir o acesso à internet nos países em desenvolvimento enfrentou obstáculos. 

Em 2016, as autoridades regulatórias das telecomunicações indianas proibiram a companhia de oferecer acesso gratuito a uma versão de baixo consumo de dados do app do Facebook.

O Facebook, que não comentou o custo do cabo em Uganda, diz que sua estratégia na África é um esforço de longo prazo. A falta de conectividade é um importante obstáculo à elevação do crescimento econômico. 

“Vemos a rede como algo que possibilita nossos negócios, não como forma de tirar vantagem”, disse Ebele Okobi, diretora de políticas públicas do Facebook na África.

Dexter Thillien, analista da Flitch Solutions, em Londres, disse que o Facebook testa as águas na África. 

“É a área em que eles têm menor possibilidade de fazer dinheiro, ao menos por enquanto”, afirmou.

No local de instalação do cabo, onde vive 1 milhão de refugiados de conflitos, a construção da rede de fibra óptica recebeu elogios.

Duniya Aslam Khan, diretora de informação pública da Agência de Refugiados das Nações Unidas, disse que a melhora na conectividade fez grande diferença para a operação dos campos de refugiados. As pessoas têm mais capacidade de se conectar com familiares, fazer cursos online e, claro, aderir ao Facebook.

“Estou falando com você usando o plano de dados de meu celular 3G; há um ano, isso não seria possível”, disse.

Desde o lançamento da rede de fibra óptica, a Airtel Uganda instalou 33 novas torres de telecomunicações no norte de Uganda, 71 torres foram atualizadas para telefonia 3G, e 43, para telefonia 4G.

Antes, a maioria das localidades da região só tinha redes 2G, ou nem tinha serviço de telefonia móvel —uma situação muito diferente das economias desenvolvidas, que  correm para lançar redes 5G. Mais de metade das conexões de banda larga móvel da África continua a ser 2G.

Para além dos desafios logísticos, o Facebook também precisa administrar riscos políticos, entre os quais os relacionados à sua responsabilidade por conteúdo veiculado em suas plataformas. 

A empresa sofreu críticas por seu tratamento a casos de discurso de ódio e desinformação em países nos quais existem poucas outras fontes de acesso à internet, como Mianmar. 

A Uganda impôs um tributo sobre o uso da mídia social, à qual Yoweri Museveni, presidente do país há 32 anos, atribui a culpa pela difusão de notícias falsas. 

Os provedores de acesso à internet bloqueiam redes sociais até que o imposto de 200 xelins ugandenses (R$ 0,19) diário seja pago. 

A taxa pode excluir os consumidores mais pobres de todo acesso à internet. “É um infortúnio, porque Uganda estava fazendo grandes avanço”, disse Kojo Boayke, gerente de políticas públicas do Facebook na África. 

“O custo seria de US$ 1,50 (R$ 5,64) ao mês por pessoa. É uma imensa proporção”, disse. A renda domiciliar média dos ugandenses é de US$ 604 por ano (R$ 2.269,95).

Traduzido por Paulo Migliacci 

 



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