Nova York

Ao criar o agora quarentão Garfield, o gato mais mal-humorado e preguiçoso dos quadrinhos, Jim Davis, 72, só pensava na liberdade que teria com o personagem. Para ele, criar um gato, em vez de um humano, evitaria dores de cabeça e ampliaria o universo de piadas que poderiam ser feitas com o felino. “Garfield só come e dorme, então ele não é muito polêmico. Não preciso me preocupar muito com isso.” 

O personagem, cujo nome é uma homenagem ao avô do quadrinista, James A. Garfield Davis (que por sua vez recebeu o nome do presidente americano James A. Garfield), foi criado para que todos o identificassem como o gato da casa ao lado. “Se eu fizesse um humano, teria que ser mais específico, e pessoas de outros países ou culturas poderiam não se identificar tanto”, diz o cartunista.

Ainda assim, Davis não conseguiu afastar totalmente a polêmica de sua carreira. Em 2017, ele precisou vir a público esclarecer o gênero de Garfield.  Isso porque, em uma entrevista dois anos antes, ele havia dito que o personagem era universal, “não é realmente macho ou fêmea ou de alguma raça ou nacionalidade particular, jovem ou velho”. “Mas ele é macho, ele tem uma namorada [Arlene]. Ouçam a animação, é voz masculina”, brinca.

A paixão por desenhar surgiu na infância, passada em uma fazenda em Indiana. “Queria ser um fazendeiro, mas era asmático. Tinha que ficar dentro da fazenda, porque tinha crises de asma”, diz. Aos seis anos, a mãe decidiu dar a ele papel e lápis para que desenhasse. 

Davis conta que seus traços eram muito ruins. “Desenhava uma vaca e tinha que escrever a palavra ‘vaca’. Para mim, colocar palavras em desenhos era natural, foi aí que surgiu a ideia de ser cartunista.” Ao deixar o colégio, Davis trabalhou por nove anos com Tom Ryan, criador de Tumbleweeds (Kid Farofa, no Brasil). Aos 31, tentava emplacar quadrinhos que tinham como personagem principal insetos. “Mas sempre era rejeitado.”

O cartunista reparou, então, que tirinhas de cachorros estavam fazendo sucesso, como Snoopy e Marmaduke. “Não tinha gatos. Aí pensei: rá. Se quem gosta de cachorro lê uma tirinha sobre cachorros, talvez quem goste de gatos queira ver uma tirinha sobre gatos”, diz o cartunista, criado com cerca de 25 gatos na fazenda.

Ele atribui o sucesso de Garfield ao fato de gatos serem mais parecidos com humanos. “São reservados, não são tão ativos como cachorros, que são amáveis. Gatos querem as mesmas três coisas que nós queremos: comida, abrigo e amor.” “Quando você ri de uma piada de Garfield, na verdade está reconhecendo: não é que é verdade?”, completa.

A primeira tirinha, publicada em 19 de junho de 1978, trouxe um Garfield com traços bem diferentes. “Ele parecia mais um coelho. Ele era muito mal-humorado. Com o tempo, os traços mudaram bastante para permitir que fizéssemos mais coisas com ele. Ele não se movia muito”, afirma Davis.

Na Folha, a primeira aparição do felino foi em 18 de janeiro de 1983, quando o jornal começou a publicar suas tirinhas. Elas figuraram nas páginas de Ilustrada até 2016.

A personalidade do gato também mudou. Ele ficou mais amável com Odie, e ficou mais parecido com um ursinho. “Mas ele continuou preguiçoso, guloso e odiando segundas-feiras”, brinca. Uma das características mais conhecidas de Garfield, a paixão por lasanha, é, na verdade, uma piada interna. Davis ama lasanhas. 

Os fãs também representaram parte importante dessa trajetória. Quando o desenho já tinha 25 anos, o cartunista pediu a opinião dos fãs. Ele queria saber o que eles queriam ver no desenho. “Eles responderam: queremos que Jon [dono de Garfield] tenha uma vida. Por que ele não tem um encontro com Liz?” Depois de 25 anos, eles tiveram um encontro. “Agora eles perguntam quando eles se casam?”, brinca.

Apesar dos 40 anos da tirinha, Davis diz que não se cansa do trabalho. “Fica cada vez mais divertido e mais fácil de fazer. Nunca tive vontade de fazer algo diferente, porque ainda estou tentando acertar. Escrever aquela piada que faça o mundo inteiro rir.” 

Segundo ele, quem escreve a piada agora é o próprio Garfield. “O que eu faço é imaginar ele olhando pela janela ou sentado num balanço. Então quando ele faz algo engraçado, eu só escrevo.”

A tirinha favorita de Davis é uma em que o gato está deprimido, em 1983. Deitado, ele dizia: “Oh, boy. I’m down. Down, down, down”. Começa, então, parte da música “Breakin’ Up Is Hard To Do”, de Neil Sedaka. “Recebemos centenas de cartas de fãs. Mas é tão boba. Teve uma grande reação.”

Atualmente, Davis trabalha com os roteiristas do próximo filme de Garfield, que deve ser lançado em quatro anos, e vai ser totalmente computadorizado. A próxima temporada do desenho será novamente em 2D, mas com software 3D. “Estamos usando a tecnologia a nosso favor, estamos tirando vantagem das imagens geradas por computador. Sou favorável”, afirma.

Para comemorar os 40 anos de Garfield, a equipe que faz o desenho, que está junta há pelo menos 25 anos, vai fazer um grande almoço e tirar folga pelo resto do dia. “Vamos para a piscina, jogar golfe. É como se fosse uma família.”



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