Publicidade

Um experimento concebido por estudantes brasileiros do ensino fundamental será enviado no ano que vem à Estação Espacial Internacional (ISS) para ser executado por astronautas.

O projeto foi escolhido por meio de um concurso cujo resultado será divulgado nesta quinta-feira (14) e que a Folha antecipa com exclusividade.

Participaram da disputa 72 equipes formadas por alunos de 12 a 14 anos do Colégio Dante Alighieri e de escolas públicas de São Paulo.

A competição científica faz parte do Programa de Experimentos Espaciais para Estudantes, ação anual do governo americano em parceria com a Nasa (agência espacial dos EUA) que está em sua 12ª edição. Nunca um país de fora da América do Norte havia participado da iniciativa.

A proposta vencedora busca entender como a microgravidade atua sobre um composto feito de cimento e pó de plástico verde. Será apenas a segunda vez na história que o Brasil envia um experimento para a ISS.

Divulgação/Dante Alighieri
Alunos participantes do projeto que testará a mistura de cimento com plástico verde no espaço
Alunos participantes do projeto que testará a mistura de cimento com plástico verde no espaço

Do início ao fim, o projeto durou nove semanas e envolveu cerca de 330 estudantes paulistanos. Durante esse período, eles aprenderam sobre o espaço, a ausência de gravidade, o método científico, entre outros temas.

“Os professores colocavam um assunto relacionado ao espaço para a reflexão das crianças e depois havia uma discussão entre elas”, diz o engenheiro espacial Lucas Fonseca, diretor da Missão Garatéa, que, junto com a Câmara de Comércio Brasil-Flórida, viabilizou o projeto no Brasil.

Tanto os encontros semanais como a elaboração dos experimentos ocorreram no Dante, parceiro no programa. Desde o início do processo, os jovens foram trazendo ideias do que gostariam de produzir e começaram, em grupos, a escrever os projetos.

“Os mentores não podiam influenciar os projetos. Todas as ideias vieram das crianças, nós só ajudamos a refiná-las”, acrescenta Fonseca.

Segundo o engenheiro espacial, além de ter como objetivo aumentar o interesse dos jovens em assuntos ligados ao espaço, a iniciativa dá uma atenção especial às garotas. “Em pesquisas que fizemos percebemos que é entre os 12 e os 14 que as meninas começam, por diversas razões, a perder interesse na ciência.”

Outra preocupação foi promover a interação entre alunos do ensino público e do ensino privado.

“Todo o processo, desde o anúncio, a inscrição dos projetos e as seletivas, foi uma rica oportunidade para estimularmos o pensamento científico, a criatividade e as atitudes de colaboração e de preocupação com a valorização da ciência e da tecnologia como ferramentas para o desenvolvimento”, diz Sandra Tonidandel, coordenadora-geral pedagógica do Dante Alighieri.

CIMENTO ESPACIAL

Dos 72 projetos iniciais, chegou-se aos três finalistas: 1) efeitos da microgravidade sobre o sangue conservado para transfusão sanguínea; 2) a intervenção do tungstato no desenvolvimento bacteriano da microgravidade, além do 3) cimento espacial, o escolhido pela Nasa para ser mandado para a ISS.

“A montagem dos projetos seguiu a metodologia científica”, diz Fonseca. “O que essas crianças fizeram não é muito diferente do que um acadêmico faz quando escreve um projeto de pesquisa científica.”

No experimento vencedor, os alunos miraram a possível ocupação de outros astros pelo homem. Pensando num material que pudesse ser usado para construções extraterrenas, eles propuseram testar um composto de cimento com pó de plástico verde.

“O pó de plástico verde é um ótimo escudo contra a radiação, um dos principais problemas que temos no espaço”, diz Fonseca. Além disso, trata-se de usar uma substância que já existe na ISS. A impressora 3D presente na estação espacial utiliza esse plástico como matéria-prima.

“Você melhora a performance do cimento no ambiente espacial e ainda economiza no transporte”, afirma o engenheiro espacial.

A hipótese a ser testada é se o composto irá ter uma solidificação adequada num ambiente de microgravidade. “Se funcionar, podemos começar a pensar na possibilidade de utilizá-lo”, diz Fonseca.

O projeto deve ser enviado para o espaço em junho do ano que vem e permanecerá na Estação Espacial Internacional por cerca de um mês.

Independentemente de a hipótese se comprovar ou não, os alunos já mudaram o conceito que tinham do que é fazer ciência e do espaço sideral.

Laura D’Amaro, 13, aluna do sétimo ano do Dante Alighieri e que integrou o grupo do projeto vencedor, diz que ela e os colegas tiveram de trabalhar duro. “Tivemos que pesquisar muito, estudar os tipos e as propriedades do cimento e preparar várias amostras.” Ela diz que, apesar de já gostar de ciência e matemática, nunca tinha se interessado muito por assuntos espaciais. “Mas agora eu adoro.”

A situação é parecida com a de Natan Cardoso, 14, que fez parte do mesmo grupo. O jovem vive na comunidade de Paraisópolis e estuda na EMEF Perimetral. “Nunca tinha parado para pesquisar sobre o espaço antes de entrar nesse projeto.”

Participar da elaboração do experimento também aguçou sua curiosidade. “Para tudo o que olho hoje eu me pergunto ‘como criaram isso?’, ‘por que criaram isso?'”

Segundo Lucas Fonseca, a iniciativa deu tão certo, que, no ano que vem, deverão ser ampliados tanto o número de alunos participantes como o de projetos a serem enviados para a estação espacial.

Editoria de arte/Folhapress



LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here