Relutei muito antes de desvincular-me de uma rede, mais virtual que social, à qual havia aderido cerca de sete anos atrás. Dei o passo decisivo, mas não definitivo, nesta sexta-feira (23).

Explico. Apenas desativei a conta, não a deletei. Se quiser voltar, ainda poderei. Mas a tal empresa vai ter de me convencer a tanto, por palavras e atos. Até aqui só vi soberba, omissão e oportunismo.

Tanta relutância decorre de algo importante para um jornalista: o mecanismo que me permitia contato fácil com centenas de pessoas (“amigos”, que piada) tornara-se uma fonte relevante de informação, além de um canal de divulgação para escritos e ideias.

Muitas vezes ficava sabendo ali de eventos e fatos dignos de nota. Não foram poucas as ocasiões em que pesquei nessa rede ideias para reportagens e colunas.

De resto, nunca dei pelota para os avisos de aniversário, casamentos, mudanças de emprego, mortes, promoções e coisas assim. Se a pessoa é amiga mesmo, telefono ou visito; quando muito, um email para pedir desculpas por não falar pessoalmente.

Acho ofensivo digitar meia dúzia de palavras apressadas para cumprimentar ou consolar alguém. O simulacro de intimidade dava engulhos (mas não me impediu de agradecer pelas dezenas de mensagens recebidas quando um robô se encarregava de avisar desconhecidos de que fizera 54, 55, 56, 57, 58, 59 ou 60 anos).

Tudo automático, ligeiro, descuidado, um desgosto.

Defeitos menores, talvez, numa fonte de informação útil, um pouco como os cadernos de esportes num jornal diário (com o perdão dos entusiastas do futebol), a promoção de interesses comerciais de amigos em revistas ou as batatadas que se ouvem na rádio que toca notícias.

É possível tolerá-los, como quem paga pedágio, a contragosto, para circular numa rodovia bem-conservada.

Até mesmo os algoritmos dava para engolir, como os sapos e as moscas da política, besuntados pela noção de que há males necessários. Sem uma noção concreta do que os parâmetros e códigos dos filtros escolhiam subtrair à minha visão, não doía entregar-se à ilusão de que a tela exibia tudo que havia para tomar conhecimento.

O lema inconfessável era: “Me engana que eu gosto”. Um excesso de logro, contudo, entornou o caldo.

A leitura de diversas reportagens investigativas sobre as traquinagens da empresa Cambridge Analytica na eleição norte-americana e na votação do “brexit” no Reino Unido ajudaram a retirar a trave do olho. O turvamento da visão, minha e de tantos, ia causado por algo muito maior que um cisco.

Data vênia, cabe parafrasear o arroubo de um ministro na douta Corte Suprema do Brasil: essa rede é a mistura do mal com o atraso e uma pitada de sociopatia cibernética sob uma capa preta de modernidade tecnológica.

Estou fora, e você sabe do que estou falando. Isso é parte do problema, verdadeiro sintoma. Desculpe o textão.



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