Há 20 anos, o antropólogo e arqueólogo Walter Alves Neves revelava Luzia ao mundo. Foi esse o apelido que o pesquisador deu ao esqueleto humano mais antigo das Américas e que revolucionou as teorias científicas sobre a ocupação do continente a partir de 1998.

crânio de Luzia, ícone da pré-história brasileira, estava no Museu Nacional do Rio de Janeiro durante o incêndio no último domingo (2). O fóssil estaria sob uma área com escombros, e técnicos do museu não conseguiram acessar o local. 

​ “É uma perda irreparável”, diz Neves ao ressaltar o impacto devastador da destruição do acervo nas pesquisas sobre a evolução humana nas Américas e no Brasil.

O fóssil de mais de 11.000 anos encontrado entre 1974 e 1975 na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, garantiu reconhecimento internacional à teoria de Neves de que o continente americano foi ocupado por duas levas migratórias de homo sapiens vindos do nordeste da Ásia –a primeira dos antepassados de Luzia, que tinham traços africanos e australianos, e a segunda, de ameríndios com morfologia mongoloide, semelhante a dos indígenas atuais.

Com o chamado ‘modelo dos dois componentes biológicos’, Neves desafiou o modelo hegemônico de ocupação única do continente pelo povo de Clóvis, a partir do Novo México, nos Estados Unidos. “A popularidade que a Luzia ganhou na mídia fez com que a comunidade científica levasse a sério a minha teoria sobre os primeiros americanos”, diz o professor aposentado do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

O nome dado à jovem paleoamericana, que morreu com cerca de 20 anos de idade, seria uma versão abrasileirada de Lucy, o fóssil de hominídeo mais antigo do mundo, com 3,2 milhões de anos. O “pai de Luzia” diz estar em luto profundo pela “tragédia anunciada” no Museu Nacional, que descreve como um “crime contra o Brasil e a humanidade”. 

Confira, abaixo, trechos da entrevista.

 

Folha – Qual é o impacto da perda do crânio de Luzia para a ciência? 

Walter Alves Neves – Esse incêndio representa um crime contra o Brasil e contra a própria humanidade. Além da Luzia, o museu tinha a maior coleção de esqueletos dos primeiros americanos oriundos da região de Lagoa Santa. O estudo sobre esses povos precisa passar necessariamente por esse material, e a maior parte dele estava no museu. Isso vai afetar negativamente o trabalho de gerações de cientistas que queiram entender a evolução humana no continente.

Como a análise do fóssil de Luzia ajudou a confirmar a sua teoria sobre o povoamento das Américas, que já vinha sendo formulada desde a década de 1980? 

A Luzia deu visibilidade para as nossas pesquisas no Brasil e no exterior. Antes, acreditava-se que a América tinha sido povoada por apenas um tipo de população, sob o modelo da migração única. A partir dos meus estudos com os esqueletos de Lagoa Santa e também outros na América do Sul e Mesoamérica, ficou claro que a América foi ocupada por duas populações com morfologias completamente distintas e em momentos diferentes. Os antepassados de Luzia –com formato craniano semelhante ao de africanos e australianos– chegaram às Américas há 14.000 anos pelo nordeste da Ásia através do Estreito de Bering, que liga os oceanos Pacífico e Ártico, mas não deixaram descendentes. Dois milênios mais tarde, vieram os ameríndios com morfologia mongoloide, que é a da maior parte dos índios atuais.

O esqueleto de Luzia foi encontrado na gruta Lapa Vermelha 4, no município de Pedro Leopoldo (MG) a 12 metros de profundidade. Por que ele é tão singular? 

O esqueleto de Luzia não foi encontrado por mim, mas pela missão franco-brasileira liderada pela arqueológoga francesa Annette Laming-Emperaire, que morreu de forma repentina poucos anos depois da descoberta. O esqueleto de Luzia ficou guardado por duas décadas no acervo do Museu Nacional sem que houvesse estudos ou publicações relevantes. Em 1995, eu comecei a analisar a morfologia craniana de Luzia. Em Lagoa Santa, encontramos mais de 40 esqueletos datados entre 8.000 e 10.000 anos, que são raríssimos. O da Luzia, com mais de 11.000 anos, era singular. É uma perda irreparável.

outras pesquisas recentes com os fósseis de Lagoa Santa? 

Sim. Um ex-estudante do instituto está tentando extrair o DNA de fósseis encontrados no local. Se ele conseguir extrair bem esse material de DNA, poderá ou não –mas estou otimista– confirmar o meu modelo de ocupação das Américas. A Luzia e outros crânios que foram encontrados nas Américas confirmaram a minha hipótese. O sucesso midiático de Luzia permitiu que a minha teoria chegasse à comunidade científica internacional, que passou a levar a sério o que vinha sendo dito por mim desde a década de 1980.

Restou algum material relacionado ao crânio de Luzia? 

Tenho uma cópia da reconstituição facial e que está comigo na USP. A reconstituição feita pelo antropólogo britânico Richard Neave confirmou a minha análise de que Luzia tinha traços africanos e australianos com uma morfologia craniana muito diferente da dos indígenas atuais. Há três meses, o Museu Nacional doou uma réplica do crânio de Luzia feita com impressoras 3D à Prefeitura de Pedro Leopoldo. Houve uma solenidade para marcar o ‘Dia de Luzia’ [a homenagem instituída em 2016 é feita todos os anos no dia 14 de junho]. Mas é só uma réplica. Não dá para extrair DNA, por exemplo. Diante dessa catástrofe, o crânio de Luzia é só um pequeno exemplo do que perdemos.

 O incêndio no Museu Nacional era uma tragédia anunciada?

Foi uma negligência de décadas de ausência do poder público e, portanto, uma tragédia anunciada. Todos os que conheciam o museu por dentro sabiam que essa não era uma questão de se aconteceria, mas de quando iria ocorrer. O museu foi relegado às traças pelo poder público. Estou em luto profundo. Todos os que fizeram pesquisas no acervo sabiam que o museu não tinha condições de funcionar em termos de infraestrutura. O incêndio é resultado do acúmulo do descaso do poder público.



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