Certo conhecido meu – um desses amigos de rede social – deu-me uma resposta tão curiosa dias atrás que resolvi transformá-la no mote deste texto. Perguntei a ele se havia evidências de que as políticas propostas por seu candidato a presidente resolveriam determinado problema. (O problema e o candidato não veem ao caso agora.) Ele respondeu: “Política não é ciência. Sua base é a confiança, não as evidências”.

O autor da frase é um sujeito culto, profissional respeitado em sua área e muito habilidoso com as palavras. Já tivemos entreveros por diferenças ideológicas, mas mantemos um contato respeitoso (em parte porque temos amigos em comum). Entretanto, não tenho como concordar com o raciocínio. Lidar com a política apenas na base da confiança é que nos arrastou, em parte, ao buraco onde ora nos encontramos.

Não que algum de nós esteja 100% imune a essa tentação, é claro. Escolher alguém em quem votar é, no fundo, uma operação de psicologia social, e o problema é que a estrutura mental humana parece ter sido moldada para fazer julgamentos de valor rápidos e imprecisos sobre outras pessoas – e isso inclui políticos, infelizmente. (Sim, políticos também são pessoas. É, eu sei que às vezes não parece.)

Duvida? Meu guru da neurobiologia, o americano Robert Sapolsky, da Universidade Stanford, relata em seu livro mais recente um estudo que seria cômico, se não fosse profundamente trágico. Os pesquisadores pegaram um grupo de crianças, com idade entre cinco e treze anos, e mostraram a eles pares de fotos de candidatos em diferentes eleições (as crianças não conheciam os candidatos). Em cada par, havia um candidato eleito e um rival derrotado.

Veio então a pergunta: qual desses dois sujeitos você gostaria que atuasse como seu capitão num passeio de barco? A criançada votou – e, veja você, em 70% dos casos, o capitão eleito também era o político que tinha conseguido se eleger. (O uso da palavra “capitão” aqui é mera coincidência.) Só pra deixar bem claro: crianças conseguiram adivinhar quem os adultos elegeram só com base na foto dos sujeitos.

Quanto a quem é gente grande, outros experimentos clássicos também já mostraram que mudar de opinião – mesmo que a nova opinião seja estapafúrdia perto da anterior – é ridiculamente fácil quando quem está em volta pensa diferente de você em bloco. Imagine que, no laboratório de psicologia mais próximo, você, voluntário, tem de estimar o comprimento de um fio. “Uns 10 cm”, diz você. Só que outros “participantes” do experimento – na verdade, pesquisadores à paisana – começam a dizer “Tá maluco, são 15 cm!”. Quais as chances de que você mude de opinião? Elevadas. Imagine isso numa eleição.

Esses vieses cognitivos estão em tudo quanto é canto na mente humana, mais numerosos que as hostes do Hades. É por isso que o ceticismo vigilante é a arma mais poderosa contra embusteiros da política.

Considere sempre se o que está sendo afirmado tem base empírica. Confira se planos mirabolantes de salvação nacional similares já foram colocados em prática em outras épocas e outros lugares (e o que aconteceu com eles). Duvide – em especial das coisas nas quais você adoraria acreditar. Nas palavras do físico nobelista Richard Feynman (1918-1988): “A primeira regra é você não se enganar. E você é justamente a pessoa mais fácil de ser enganada”. Escolha a dúvida. 



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