Cientistas do Instituto Butantan estão buscando uma maneira de otimizar o tratamento para quem é picado por jararacas. E uma das soluções é uma molécula facilmente encontrada em várias espécies de plantas chamada rutina.

Não que o soro antiofídico tenha perdido sentido —ele permanece essencial; não há outro tratamento disponível—, mas há algumas consequências do envenenamento que não se resolvem facilmente só com ele. Um exemplo é a hemorragia, e para tentar resolver esse sintoma que os pesquisadores do Butantan estão buscando possibilidades de tratamento.

Rutina, na verdade, é o apelido do flavonoide quercetina-3-rutinosídeo, uma molécula presente em plantas produtoras de frutos cítricos, em algumas ervas daninhas e também eucaliptos. Nos EUA, ela tem sido comercializada como suplemento alimentar, com a alegação de que seus efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes teriam reflexos benéficos na saúde.

Alguns estudos mostram, por exemplo, que a suplementação com rutina aumenta a produção leiteira em vacas e reduz os efeitos do envelhecimento na pele. Outros estudos, no entanto, não viram diferença significativa nos efeitos antioxidantes quando comparado a quem recebeu o placebo.​

Enquanto isso, no Brasil, a aposta de Marcelo Santoro, líder da pesquisa do Butantan, tem a ver com os efeitos vasculoprotetores da rutina, isto é, sua capacidade de ajudar o organismo a preservar ou reparar os vasos —no caso, dos prejuízos causados pelo veneno da jararaca.

Os pesquisadores usaram camundongos e injetaram tanto o veneno quanto a rutina em um grupo de animais. Outros receberam ou só rutina ou só veneno ou solução salina (inerte).

Além de combater os efeitos de estresse oxidativo gerados pelo veneno, os animais que receberam rutina junto ao veneno perderem muito menos hemáceas (células sanguínea mais numerosas) do que aqueles que receberam só o veneno.

Em um teste de coagulação feito com os bichos (chamado de “tail bleeding”, ou sangramento de cauda, em tradução livre), a rutina foi capaz de restaurar a essa competência do organismo.

Como a rutina foi injetada junto ao veneno, os cientistas ainda não sabem qual seria o tempo máximo para que o tratamento baseado nela ainda fosse efetivo. “É uma pesquisa inicial, ainda temos muito o que aprende nessa área”, diz Santoro.

A esperança do cientista é que no futuro a rutina passe a ser usada em conjunto com o soro —feito a partir de envenenamento de cavalos e posterior filtragem de seu sangue, a chamada aférese.

Os resultados foram publicados na revista Plos Neglected Tropical Diseases e o estudo também contou com a participação das pesquisadoras Ana Teresa Sachetto e Jaqueline Rosa.



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