Você tem facilidade com números?


Antes de fechar esta página, horrorizado com a ideia de ler voluntariamente sobre matemática, espere.


Para a maioria de nós, a matemática básica é algo que usamos o dia todo com sucesso, seja em casa ou no trabalho. Decisões com base em cálculos nos ajudam a cuidar de contas bancárias, avaliar itens no supermercado, fazer estimativas e apontar erros. Confiamos em nosso senso numérico quando decoramos um quarto, assamos um bolo, saímos para comer ou vamos a uma loja. Cada uma dessas tarefas requer numeracia: a habilidade de entender e trabalhar com números no dia a dia.


“O que precisamos na rotina é de uma matemática muito simples”, diz Mike Ellicock, diretor-executivo da instituição britânica National Numeracy. “Mas também precisamos de uma compreensão conceitual aplicada a situações complexas”.


Essa compreensão se aplica a uma ampla gama de informações matemáticas que podem ser intrincadas, abstratas ou incorporadas a contextos desconhecidos.



Por exemplo, pode ser necessário calcular o custo de comprar versus o de alugar um carro; usar milhas ou dinheiro para comprar uma passagem de avião ou como ajustar uma receita para alimentar seis pessoas em vez de quatro. Frações, porcentagens, aproximações, compreensão espacial, taxas de variação, gráficos e aritmética básica são parte do sentido numérico, mas a numeracia não é igual à matemática de sala de aula – nem é o mesmo que resolver cálculos complexos.


Na verdade, a numeracia é a forma como interpretamos e aplicamos o conhecimento matemático ao mundo ao nosso redor.



Pense em como gerencia o seu dinheiro. Embora a tecnologia certamente torne mais fácil comparar custos do cheque especial, empréstimos pessoais e hipotecas, fazer estimativas (e decidir se uma resposta está correta) é ainda umatarefa muito manual.


Empresas com frequência presumem que seus clientes têm familiaridade razoável com número. Mas o que acontece quando a maioria das pessoas não entende questões como a taxa de juros dos empréstimos estudantis? Ou se um novo sofá vai passar pela porta da sala? Ou como converter, com rapidez, reais em dólares para pagar algo? Claro, essas decisões são baseadas em vários fatores, incluindo o comportamento humano, mas a compreensão numérica também é importante.


Pessoas sem essa habilidade não conseguem calcular o valor de 25% da promoção ou dividir a conta do bar com amigos. Elas são incapazes de comparar planos de aposentadoria, hipotecas ou até tamanhos diferentes de lata de refrigerante. Eles podem confundir ordens de grandeza, fixar-se em certos riscos, confundir correlação com causalidade ou enxergar padrões sem sentido em eventos aleatórios. A inabilidade de entender números pode afetar inclusive como se vota.



E o problema parece estar piorando. No Brasil, apenas 4,52% dos estudantes do ensino médio apresentaram em 2017 conhecimento adequado em matemática. Quase quatro em cada cinco adultos no Reino Unido têm dificuldade com matemática. E a numeracia entre pessoas de 16 e 65 anos nos EUA está significativamente abaixo da média. (Preocupado/a com processamento de números? Teste – em inglês – sua capacidade matemática).


Mas por que se preocupar com isso?


A incompreensão matemática torna a vida de indivíduos mais difícil, mas suas consequências são, na verdade, globais: pesquisas sugerem uma correlação entre baixa habilidade matemática e taxa de desemprego, produtividade e até saúde física. Mas com o fácil acesso ao celular e a outros equipamentos, será que isso tem importância?


Stuart Elliot, pesquisador visitante da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, trabalha comparando humanos e computadores para entender quais habilidades podem um dia ser superadas pela máquina – e portanto se tornarem obsoletas.


“Acho que estamos perto do momento em que as máquinas vão ajudar não apenas com cálculos aritméticos mas também com a compreensão numérica”, diz ele.


Da mesma forma que calculadoras superaram a obrigação de fazer certas contas de cabeça, computadores podem um dia acabar com a necessidade de pensamento qualitativo.


Mas antes que entreguemos a matemática a máquinas conscientes, vamos considerar os riscos de se fazer isso. A Internet das Coisas (sistema de internet conectando objetos que podem trocar informações e dados) vem acumulando dados pessoais: celulares, informações sobre atividade física, equipamentos de casas inteligentes, histórico de navegação, cartões de viagem e registros médicos eletrônicos guardam uma vasta quantidade de informações sobre nós – dados que podem ser coletados e explorados.



“Os modelos ficam escondidos com a tecnologia”, alerta a professora Celia Hoyles, diretora de Educação Matemática da Universidade College London. “Isso pode ser muito perigoso. Precisamos entender que o resultado de um computador não é mágica: temos que questionar de onde vêm os números”.


“A população equivocadamente acredita que pode calcular tudo com a tecnologia”, diz Conrad Wolfram, diretor estratégico da empresa Wolfram Europe. De resultados de provas a notícias falsas, “as coisas que têm um número anexado a elas às vezes não são questionadas”. A ubiquidade das estatísticas – geralmente geradas pelo computador – ressalta a importância de sermos fluentes em números.


Apesar do poder de processamento de sistemas digitais, eles são falíveis. Até o mais sofisticado deles não pode competir com o cérebro humano em níveis superiores. Embora os computadores sejam úteis para cálculos rápidos e a identificação de tendências, os humanos são excelentes em fazer julgamentos e descobrir sutilezas. Um garçom em um restaurante pode entregar a conta errada à sua mesa, por exemplo, e você precisa de compreensão matemática para notar o valor correto.


“Como ser humano, você ainda tem que questionar”, diz Wolfram. “Por que você está fazendo isso e como você pode ter sido enganado?” De fato, sempre precisaremos de bons hábitos de numeracia para aproveitar ao máximo a tecnologia que usamos. Até as máquinas de inteligência artificial mais sofisticadas só conseguem fazer aquilo que é determinado pelos dados que as treinam, e a intervenção humana, seja intencional ou acidental, pode influenciá-los.



Afinal, o que deveríamos fazer? Primeiro, resista ao impulso de confiar em celulares e tablets. Em vez disso, faça cálculos básicos de cabeça ou no papel. É preciso um pouco de esforço e prática, mas a construção de bons hábitos o ajudará a identificar erros e a descobrir o que realmente importa.


Em segundo lugar, preste atenção ao contexto. Fazer as perguntas certas pode ajudá-lo a ver a diferença entre ciência real e pseudociência. Também vale a pena ter em mente que boas estatísticas são mais do que apenas palpites: elas são baseadas em definições claras e razoáveis, medidas precisas e amostras representativas.


Terceiro, use computadores com inteligência. Eles podem economizar tempo e ajudá-lo a compreender tarefas quantitativas mais difíceis. Eles também podem checar procedimentos e melhorar ou acelerar nossa capacidade de solucionar problemas.


Frequentemente nos falta um raciocínio intuitivo para números muito pequenos ou grandes, como quantidades ou períodos de tempo; os computadores podem nos ajudar a entender a magnitude de um orçamento de trilhões de dólares, um romance de cem mil palavras ou uma megatonelada de explosivo no estoque nuclear de um país.


Por último, seja cético. Para usar números e dados, é importante conectar-se com os fatos. Isso pode significar confrontar a análise quantitativa com o que ouvimos que é verdade. Sem a numeracia, simplesmente não entenderemos a história toda.



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